“Le Grande Bleu” (“The Big Blue” – “Vertigem Azul”) Luc Besson (1988) França-Itália

No meu trabalho de ilustração [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] é definitivamente uma das minhas grandes influências que ( juntamente com o romance de Fantasia “A WIZARD OF EARTHSEA”de Ursula K.Le Guin ),  está sempre presente em todas as minhas pinturas que envolvam um bocadinho de mar.
Aliás, se existe sempre um pouco de oceano no meu trabalho a culpa é de:

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DEEP BLUE DREAM

Se contarmos pelas vezes que já revi um filme [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] será simplesmente o meu filme favorito de todos os tempos pois acreditem-me ou não mas já o devo ter visto pelo menos umas 120 vezes no mínimo desde que pela primeira vez a sua edição VHS (com a versão “americana” curta) me veio parar às mãos pela altura do seu lançamento. E digo 120 para apontar por baixo, pois houve um verão que o utilizei quase como música de fundo sempre ao fim do dia quando voltava da praia como se estivesse a ouvir um cd.

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Se nunca ouviram falar de [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] mas adoram o mar, são fascinados pelo oceano e porventura olharão para os golfinhos como sendo uma potencial “verdadeira inteligência extraterrestre” co-habitando o nosso planeta debaixo do mesmo céu azul, então não percam tempo lendo o texto a seguir e vão comprar o filme já.
Aliás, se estiverem ligados de alguma forma à práctica do mergulho ( e nunca viram isto (?!) ) nem pensem em mais nada a partir deste momento a não ser em comprar o filme em Bluray. E esqueçam o dvd pois nem se compara. Pirataria idem.
A sério, não percam tempo; se vocês tiverem alguma ligação com o mar mas nem sabiam que este filme existia  já querem comprar este filme mas não sabem.

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LEAVING THE WORLD BEHIND

Muitos de vocês poderão estar a perguntar o que faz um filme como  [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] aqui num blog sobre filmes de fantasia e ficção científica.
Pois bem, se há um filme que merece todo o destaque num blog assim é este.
Luc Besson não só criou um universo totalmente rico, hipnotizante, único e fascinante como o dotou de uma atmosfera que muitos filmes de ficção-científica desejariam alguma vez ter conseguido reproduzir. Por causa disso este é também um verdadeiro título de culto dentro do género.

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Pode não parecer a um primeiro olhar mas [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] na sua essência podia muito bem ser uma grande novela dentro da melhor ficção-científica, daquelas que há primeira vista nem dão muito a ideia que pertencerão ao género, mas que na verdade têm por base um conceito do mais hardcore que podemos encontrar nas melhores novelas dentro da FC mais orientada para a biologia do que para a tradicional exploração espacial.

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Embora não seja esse o coração do filme é de certa forma a sua base e como tal [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] pertence de pleno direito a um blog como este, até porque além de ser uma história única , contém mesmo um universo totalmente esquecido hoje em dia que vale a pena dar a descobrir a quem se calhar ainda nem era nascido quando o filme estreou nas salas e apareceu por cá em cassete VHS nos videoclubes do final dos anos 80.

[“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] é um filme único não só em estilo, argumento e atmosfera como também é algo á parte dentro da própria filmografia de Luc Besson.
Isto porque [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] é aquele filme de Luc Besson que sempre agradou até aos seus críticos mais cerrados ao longo dos anos mas que também lhe dificultou a vida em termos de apreciação crítica relativamente a tudo o que ele filmou depois. A seguir a um filme assim, seria realmente difícil superar-se e para muita gente Besson nunca mais voltou a criar algo que tivesse atingido o nível desta obra extremamente pessoal para o próprio cineasta.

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Actualmente parece não haver filme de Luc Besson que depois não leve a crítica a perguntar-se mais tarde ou mais cedo por onde anda o Luc Besson dos tempos de [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] especialmente porque o realizador anda mais ligado ao cinema ultra comercial hoje em dia e portanto bastante mais menosprezado, havendo por aí muito crítico que não lhe perdoou ter saído de um certo estilo quase próximo do cinema-de-autor para se dedicar a fazer e produzir essencialmente filmes pipoca.

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SECOND DIVE

[“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] não envelheceu um só dia ( se ignorarmos os penteados da Rosanna Arquette ) e é daqueles que ninguém se lembra que já foi filmado há practicamente trinta anos.
Já agora uma pequena nota de aviso sobre o horrível trailer do lançamento americano…
Se esperam encontrar nesta produção o thriller de espionagem em tom de ficção-científica blockbuster que [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] aparenta ser caso acreditem no que o marketing americano fez com este título em 1988, esqueçam e é melhor vocês irem ver os Transformers do Michael Bay de uma só vez.
O trailer internacional deste filme montado em Hollywood deve ser um dos mais atrozes e enganadores trailers que alguma vez foram criados para publicitar um filme . É que nem sequer consegue ter algo a ver com o que o próprio Besson produz hoje em dia quanto mais reproduzir o verdadeiro ambiente do produto original da altura.

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A julgar pelo trailer americano de [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“], uma pessoa até pensa que este será uma espécie de thriller high-tech cheio de estilo e aventura misteriosa; uma espécie de “Leon” mas com golfinhos e um toque de James Cameron passado em ambientes de James Bond.
Lamento pessoal, mas este filme não é nada disso.
Os locais podem rivalizar na boa com qualquer 007 mas thriller de espionagem e mistério high-tech é que este poético filme sobre o oceano [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] não é de certeza, nem nunca poderia ter sido.

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Ao contrário do que o conhecido narrador de trailers gringos diz na apresentação “americana” não há qualquer mistério para ser resolvido na história pois o único mistério nisto tudo está mas é em sabermos como raio é que alguém produziu um trailer tão enganador nos Estados Unidos.

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Essencialmente essa apresentação enganosa ( com uma música de filme de terror hilariante ) serviu para impingirem a versão curta do filme no mercado internacional quando este foi distribuído pela Universal e como tal sempre existiram duas versões, uma versão longa que foi a que passou nos cinemas Franceses e a versão curta que foi exigida pelos distribuidores americanos de forma a simplificar a história para as audiências gringas ou “gringuizadas” internacionalmente.

REMEMBERING A HEARTBEAT

Mas então, sobre o que raio é este filme afinal ?
Essa é a pior pergunta que alguém pode fazer sobre [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] e eu não gostaria nada de ter estado na pele do tipo que teve que vender este filme ás audiências pipoca dos Estados Unidos, mesmo já naquela altura.
[“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“]não será exactamente Cinema-de-Autor naquele sentido depreciativo mais elistista, mas também não agradará muito ás audiências de cinema de centro comercial que papam tudo o que a Tv lhes diz estar na moda esse fim de semana.

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Não agradará especialmente ás audiências modernas; mais habituadas a sequências de acção a duzentos frames por segundo, montagem MTV e a terem uma explicação detalhada de tudo e mais alguma coisa de X em X tempo com uma conclusão bem explícita no final da história.
[“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“]não tem por isso cenas perseguição de dez em dez minutos de modo a não adormecer as plateias com short-attention-span e como tal será “uma ganda seca” para muita gente.

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Não vão encontrar aqui robots gigantes que se transformam em carros cheios de estilo, não mete adolescentes que usam a última roupinha da moda e também ninguém almoça no McDonalds enquanto passa em background a última música de quem estiver na berra no MTV.
Luc Besson criou um poema visual totalmente contemplativo ; uma história de amor sobre o Oceano e é isso que poderão esperar de [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“].

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Sem mais nem menos e sem pretenções a filme artístico ou a obra elitísta iluminada sendo isso uma das coisas que o torna tão especial.
Apenas leva o seu tempo, não tem pressa de ir a lado nenhum e é um filme com uma atmosfera que os deixará totalmente imersos num mundo á parte, mas para isso terão de se deixar ir pelo seu ritmo contemplativo e aceitar a viagem que propõe.

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Que posso eu dizer mais sobre isto ?…
Que é uma das melhores histórias de amizade que poderão encontrar ? Que é a história de dois amigos que competem para decidir quem mergulha mais fundo ? Que é uma história de amor ?  Que é uma aventura ?
Que é um road-movie ou um filme de viagem…porque vocês irão adorar a localizações nesta história… E são todas reais sem matte-paintings nem CGI ( que ainda nem existia nesta altura ).
[“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“]é udo isso e muito mais !
Mas não tem acção, não tem perseguições de automóveis, não tem tiros nem explosões e nem sequer tem vilões. Ou herois, na verdade…

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[“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] também não tem extra-terrestres escondidos no fundo do oceano.
Ou melhor…pensando bem…se calhar até tem…
De qualquer forma, não esperem cinema de acção e aventura no sentido em que se calhar poderiam pensar que isto seria.
Esperem no entanto um ambiente de grande escala , com um sentido épico e uma atmosfera de grandiosidade permanente em termos visuais e de espaços abertos. Uma espécie de blockbuster para os sentidos em modo totalmente hipnótico e relaxante.

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Contém uma grande história de amor e não será própriamente uma comédia romântica para adolescentes, embora seja talvez o melhor date-movie jamais criado.
Porquê ? Bem, se a vossa namorada adora golfinhos…este é o filme a ver com ela.
O quê ?! Vocês odeiam golfinhos ?!!
Depois de verem isto até vão querer ser um !

Collection Christophel

Portanto…
Há uma mulher e dois homens nesta história…por isso o inevitável nestas coisas seria esperarmos o habitual triangulo amoroso com todas as rivalidades entre personagens, certo ?
Errado.
Há um triangulo amoroso, mas não contém quaisquer histórias paralelas à sua volta.
Na verdade este triangulo amoroso tem mais do que trés pessoas de facto.
Todos os personagens fazem parte dele.
Incluindo os golfinhos e principalmente o Oceano !

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Aha, então isto é uma espécie de filme erótico-exótico com muita badalhoquice em ambientes túristicos podres de sexy, certo ?
Errado !
Há uma cena de sexo em [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] mas não dessa forma que esperam.
Será uma comédia então ?
Bem, vão fartar-se de sorrir e até rir bastante em muitos momentos mas também irão chorar.
Um drama ?… Não da forma que esperam, não.
De forma alguma.
Uma comédia dramática…nope !

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Ok, pelo menos mete ficção-científica !
Bem…se calhar muitos de vocês nem se darão conta desse facto, pois é algo totalmente subliminar ao longo de toda a história e provavelmente muita gente ficará tão envolta na atmosfera e carísma daqueles personagens que nem reparará que na sua base, [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] tem um conceito de ficção-científica fascinantemente bem inserido. Isto porque se assenta numa base médica que poderia ser real pois foi inclusivamente baseada em pesquísas científicas legítimas já nessa altura.

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HOMO DELPHINUS

Os golfinhos têm em [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] um papel muito importante, pois não parecendo quando vemos o filme pela primeira vez, são no entanto apresentados como criaturas tão inteligentes quanto o Homem.
Verdadeiras sereias dos nossos mitos e uma raça de seres à parte que habita o planeta nos nossos oceanos e com o qual nunca poderemos comunicar; pois serão o perfeito exemplo de uma verdadeira inteligência alienígena nos nossos próprios mares no sentido mais amplo da expressão.

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Imaginem então um golfinho que por acaso terá nascido humano.
Um humano chamado Jacques Mayol que sabe não pertencer aqui e toda a sua vida sentiu um chamamento vindo do mar como se precisasse regressar até ele; até porque o seu corpo tem características que o permitem ambientar-se aquele universo aquático ao contrário do que seria de esperar.
Essencialmente [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] é a história de um golfinho humano.

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Nada disto nos é explicado directamente no argumento mas tudo nos é apresentado de forma quase subliminar debaixo de uma capa de história de amor, amizade e rivalidade.
Prestem portanto, bem atenção a [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] pois se calhar só a uma segunda ou terceira visão o espectador começará a aperceber-se dos pequenos detalhes que enriquecem esta que será uma das histórias de ficção-científica mais discretas de todos os tempos.

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Nunca se assume como tal, mas pertence mais ao género por direito do que 99% de tudo o que tem saido de Hollywood em blockbusters cheios de estilo e efeitos especiais nos últimos anos.
Imaginem uma espécie de 2001 Odisseia no Espaço sem pretenção a obra de arte mas com uma atmosfera ligeira e descontraída mas nem por isso menos intímista.
Em vez de se situar no espaço é passado nos oceanos com muito sentido de humor e verdadeiro humanismo.
Na verdade é sobre tudo aquilo que cada um de vocês queira que seja.
É sobre aquilo que estiverem a sentir.
É um filme totalmente aberto à maneira como o absorvem e está filmado precisamente de forma a que mais do que uma história seja uma verdadeira experiência imersiva que os transportará para um mundo aquático como nunca viram filmado antes.

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MY LADY BLUE

Como diz Luc Besson numa entrevista do making of; a certa altura o próprio estava totalmente encalhado com o filme, pois não sabia que direcção poderia tomar para conseguir transportar a audiência para o interior daquele universo…
Então o verdadeiro Jacques Mayol, que trabalhou no projecto como consultor de mergulho, levou Besson a mergulhar com ele um dia e fê-lo sentir o mar á sua maneira; do seu ponto de vista, tendo sido assim que o realizador percebeu que não tinha que explicar a história em pormenor ao espectador. Só tinha que conseguir que as audiências sentissem o que seria estar no fundo daquele imenso azul aquático.
E não poderia tê-lo conseguido melhor !!

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[“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] tem um ambiente tão mágicamente aquático que se o virem com excelentes condições técnicas, num écran grande e com um som a condizer, até vão precisar de uma garrafa de oxigénio e uns óculos de mergulho pois isto mesmo sem óculos 3D tem mais poder de os transportar para o seu interior do que muita coisa moderna que encontram hoje saída de Hollywood nos cinemas todos cheios de gadgets.

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A atmosfera deste filme ultrapassa qualquer descrição.
Podem já ter visto muito cinema subaquático, mas garanto-vos que nunca viram nada como isto. O seu efeito sensorial tem mesmo que ser sentido pelo espectador. Vejam-no em boas condições técnicas e vão senti-lo, podem ter a certeza. E vejam-no às escuras. Isso é absolutamente fundamental.
Ignorem a pirataria. Já comparei várias cópias supostamente a 1080p que andam pela net e nem se comparam com a qualidade que o verdadeiro bluray consegue colocar no ecran. Especialmente nas cenas de alto mar que compõem 95% do que foi filmado ao vivo para este filme.
Isto porque todas as cenas de mergulho são reais, pois foram mesmo filmadas no oceano. Não há cá efeitos de estúdio nem CGIs modernos. É um filme à moda antiga e técnicamente não poderia ter sido mais notável; especialmente tendo em conta não só onde foi rodado mas principalmente como foi rodado.

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Por isso façam um favor a vocês mesmo. Se nunca ouviram falar deste filme e acharem que vão gostar muito de [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“], não o vejam pela primeira vez  numa cópia rasca sacada da net ou num ecran pequeno com um som foleiro ou mediano. E E esqueçam as edições dvd, pois o  blu-ray actualmente é a única forma como este filme deverá ser visto.
Liguem as colunas com bom surround ( ou usem uns bons headphones com som no máximo ), encontrem o maior televisor que conseguirem, apaguem as luzes e deixem-se entrar num universo que os irá certamente surpreender e maravilhar. Se gostam de histórias sobre o oceano nunca viram nem ouviram nada como [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“].

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E por falar em som, a música deste filme da autoria de Eric Serra é um personagem à parte e uma peça totalmente essencial na criação da magia desta história. Uma mão invisivel que subliminarmente manipula o tom emocional de todas as cenas de uma forma que não poderia ter sido mais complementar; (todos os subtitulos em inglês nesta review são títulos de músicas na banda sonora). Daí a importancia de verem esta obra cinematográfica única com as melhores condições técnicas possíveis.
Para mim [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] é essencialmente um filme sobre o amor, mas com um significado muito para além do banal e estereotipado.
Amor para lá do género, para lá do sexo, para lá da nacionalidade, da raça ou da espécie.
Sobre o amor enquanto emoção e sobre a amizade enquanto forma diferente de amar.
E sobre liberdade.
Especialmente sobre liberdade.

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SPAGHETTI DEL MARE

Já agora não podia deixar de falar no trabalho dos actores.
Quando anos atrás descobri que Jean Reno era francês e não Italiano nem queria acreditar ! Desafio qualquer pessoa a ver o personagem do Enzo e a lembrar-se que está a ver um actor francês por detrás daquela composição absolutamente inesquecível.
E se juntarmos o facto de sabermos que o actor antes de fazer este filme nem gostava particularmente de água (ia morrendo afogado nas filmagens e tudo), todo o seu trabalho ainda nos parece mais surpreendente pois nem por um instante deixamos de acreditar que aquele homem não terá passado toda a sua vida debaixo de água. Jean Reno foi um daqueles castings absolutamente brilhantes e que definem um filme.

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Este é um daqueles filmes em que nos esquecemos por completo que estamos a ver actores. Todos os personagens são tão complexos que na sua aparente simplicidade nos fazem esquecer que estamos a ver uma história de ficção e mergulhamos  no seu universo sem questionar por segundos a existência real daquelas pessoas. Especialmente do italiano Enzo que é de ver para crer e desafia qualquer descrição pois é um dos personagens mais inesquecíveis de todos os tempos.
Muito bem caracterizado humanamente e com uma química hilariante com o “seu irmão” de ecran, “Roberto” (o actor Marc Duret)que é o contraponto perfeito para Enzo e ambos parecem Italianos de gema que não questionamos nem por um segundo, ( mesmo quando já sabemos que os actores são Franceses ).

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Isto sem desconsideração para Rosana Arquette ou Jean Marc Barr que estão absolutamente brilhantes como JoannaJacques Mayol na forma como dão vida àquelas duas pessoas que poderiam ser quaisquer umas que encontramos numa praia perto de nós.
Jacques Mayol é alma do filme e nem precisamos dizer mais nada.
Joanna será provavelmente a melhor personagem feminina romântica dos anos 80 precisamente porque nem se nota nem se impõe; tal a simplicidade da composição da actriz que a humanizou a um ponto que esquecemos também por completo a interpretação por detrás do seu trabalho no ècran.

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Uma das melhores caracteristicas de [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] é o facto de conter uma galeria de personagens inesquecíveis. Até ao personagem mais terciário tem o seu momento para brilhar no ecran por segundos e todas as participações ficam na memória por aparecerem sempre numa cena emblemática da história, o que só demonstra o talento de Besson não só para criar bons personagens como principalmente para humanizá-los e acima de tudo contar histórias com uma enorme alma sem desperdiçar linhas de argumento.

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Outro pormenor incontornável neste filme é o elenco infantil.
Só entram nos primeiros dez minutos do filme, mas são absolutamente notáveis.
Não só os putos são excelentes actores como ainda por cima este filme deve ter o melhor casting de sempre no que toca a terem encontrado crianças que realmente se parecem com versões infantis dos personagens adultos de uma forma absolutamente incrível.

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RESCUE IN A WRECK

E já agora…façam-me o favor de apenas ver a versão longa deste filme com 168 minutos, o chamado “Directors Cut”.
Façam o que fizerem, mas evitem a versão curta de pouco mais de duas horas pela vossa saúde !
A versão longa é na verdade a verdadeira versão original do filme como este foi mesmo montado inicialmente em França antes de ter sido totalmente retalhado pelos distribuidores americanos que tentaram transformar aquilo num filme de acção e para isso eliminaram practicamente 40 minutos de cenas importantes para o conceito original da história.
Ver as duas versões é como ver dois filmes diferentes, por isso meus amigos vejam apenas a versão integral.

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A versão curta remontada na América até teve a fantástica banda sonora original de Eric Serra apagada e substituida por uns temas mais Pop criados nos States porque os distribuidores americanos acharam que precisavam de uma coisa mais mexida e que atraísse a juventude ao contrário da hipnótica música original (?!).
Essencialmente parece que alguém nos States achou que o filme não se percebia muito bem e que era um bocado parado, por isso tentou animar a coisa transformando-o num produto hibrido algures entre o filme de aventuras e qualquer outra coisa que eles próprios não conseguiram fabricar artificialmente, mesmo quando lhe espetaram uma sonoridade mais americana.

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Além disso como também não gostaram do final original pois não explicava tudo em pormenor, resolveram editar uma espécie de final feliz que se percebesse melhor para agradar ao público americano.
Resultado, só serviu para que depois durante anos a fio a versão distribuida internacionalmente  fosse apenas a versão retalhada. A mesma que chegou a portugal em VHS no final dos anos 80 mas nem por isso deixou de captar a minha atenção.
Por isso meus amigos, evitem a todo o custo a versão curta !
Vejam apenas a versão de 168 minutos ou irão ver um filme totalmente diferente.

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Felizmente que actualmente já se encontra disponível também em dvd na sua versão integral, mas cuidado para não comprarem a versão curta retalhada que ainda continua á venda. Até porque as capas de ambas as versões nas suas edições de dvd são iguais !
Também não recomendo que comprem o filme em França, pois este apesar de ser uma produção francesa, tem o diálogo original todo em inglés.
Acontece que em França tanto o dvd como o blu-ray apenas contêm as versões dobradas em francês e portanto cuidado se o comprarem por aquelas bandas.
COMPREM APENAS A EDIÇÃO INGLESA Á VENDA NA AMAZON UK EM BLURAY.
Este novo blu-ray lançado há alguns anos contém inclusivamente um making-of de mais de 90 minutos com tudo o que sempre quiseram saber sobre o filme e que é absolutamente extraordinário pois desmistifica muitas das lendas urbanas que durante anos corriam por entre os fans do filme.

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A PROPÓSITO DO MAKING OF…

Só pelo making of vale a pena comprarem o filme em Bluray mesmo que já o tenham adquirido em DVD.

WATERWORKS

Não é um daqueles making-of publicitários da treta mas um verdadeiro documentário exclusivo para o bluray rodado na época, sobre os bastidores do filme e onde se pode inclusivamente comprovar que todas as cenas no oceano foram não só rodadas no mar como os próprios actores tiveram que aprender a mergulhar em profundidade ( treinados pela equipa do verdadeiro Mayol ) sendo mesmo eles que rodaram todas as cenas em que os vemos descer ao fundo do mar. Havia dois duplos preparados mas practicamente não foram usados para nada, excepto em pequenos inserts de segunda unidade quando os actores estavam a filmar outras coisas noutro local.

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Durante anos correu o boato de que o filme era apenas mais um filme de efeitos especiais quando a realidade foi exactamente o contrário. Tal como aconteceu em “THE ABYSS” de James Cameron, também aqui em [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] os mergulhos foram tão reais que a equipa de produção e filmagem foi apenas composta por mergulhadores experientes.  Mergulhadores que estavam inclusivamente equipados com fatos de profundidade ao longo das várias escalas entre a superfície e o fundo do mar ( que também vemos em algumas cenas );  enquanto que os actores tiveram que as rodar verdadeiramente como vemos os personagens fazerem no filme. Jean Marc Barr ia se perdendo na escuridão durante as filmagens à noite no meio do mar, por exemplo.
E [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] ao contrário de “THE ABYSS” foi rodado no mar enquanto que o James Cameron rodou o sue épico subaquático numa piscina gigante construída dentro de um reactor de central eléctrica vazio.

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Curiosamente Jean Reno quando foi contactado para isto nem sequer sabia nadar e mentiu na audição. Quando chegou ao set, Besson teve que lhe arranjar um professor de natação e pelos vistos Reno ( e também Jean Marc Bar ) sairam-se tão bem que segundo o próprio verdadeiro Jaqques Mayol no final das filmagens estes poderiam practicar o desporto visto no filme de forma profissional se quisessem.
Jean Reno ia morrendo afogado durante as filmagens no entanto. Não durante as descidas em profundidade no oceano real, mas na única cena gravada em estúdio e que é a cena em que Enzo explora um velho navio enferrujado tentando salvar um mergulhador.
Essa foi a única cena subaquática do filme filmada em estúdio e Reno entrou em pânico com um ataque de claustrofobia que quase o levou à morte por afogamento nesse dia pois a coisa foi bastante séria.
No entanto lá recuperou, voltou ao set e completou a cena com o à vontade extraordinário que se pode ver no filme como se não houvesse diferença nenhuma entre Reno e Enzo, actor e personagem.

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Quando o filme foi lançado em Bluray muitas curiosidades sobre este foram divulgadas.
Outro mito que causa grande confusão entre os fãs é a ideia de que [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] conta uma história verdadeira sobre a rivalidade entre Jacques Mayol e Enzo Molinari , ( ambos pessoas reais e ambos atletas profissionais, verdadeiros gurus do mergulho livre em profundidade, já falecidos ).
Ora como poderão descobrir no documentário, infelizmente essa parte é uma história que Luc Besson construiu tendo por base bocados da vida dos dois homens.
Na verdade nada do que vemos no filme teria sido possível ter acontecido, pois já na altura a diferença de idades entre eles era bastante grande e nunca se cruzaram profissionalmente embora muita gente por aí continue a comentar o contrário como se quisessem mesmo que o argumento tivesse contado uma história verdadeira.
Curiosamente Luc Besson depois também ainda lhes trocou a personalidade. Segundo consta, a verdadeira personalidade do real Jacques Mayol é a de Enzo Molinari no filme e o verdadeiro Enzo ( o mais velho dos dois ) tinha precisamente o espírito místico e mais contemplativo que depois foi atribuído a Mayol enquanto personagem.

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MUCH BETTER DOWN THERE

[“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] é um filme extraordinário, muito bem escrito, realizado, interpretado e fotografado de uma forma incrivel com uma banda sonora totalmente adequada. Não pertencendo a género nenhum, pertence a todos e acima de tudo transporta-nos para um mundo á parte que todo aquele de vós que adora o mar não pode deixar de visitar de maneira nenhuma.
Além disso contém as melhores cenas com golfinhos que vocês alguma vez viram no cinema e está cheio de imagens inesquecíveis que quase tornam este universo em qualquer coisa encantada saido de um qualquer filme de fantasia.

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Entre elas uma quantidade fantástica de paisagens de cortar a respiração que não irão esquecer tão cedo ( e que são bem parecidas ao que existe por aqui em alguns locais de Portugal nos melhores locais secretos e inacessíveis que eu conheço bem na Costa Vicentina ).
Se o cinema se pode definir pela capacidade de nos transportar para mundos imaginários sem que precisemos de sair do lugar então [“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“] é um grande filme de Cinema em qualquer parte.

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CLASSIFICAÇÃO

Depois do que escrevi acima há muito pouco que eu possa dizer sem me repetir.
[“THE BIG BLUE – Le Grand Bleu“]é o meu filme favorito e poderá tornar-se no vosso filme favorito também.
Ah, e vão andar a citar frases deste filme para o resto da vida, pois este é um daqueles argumentos cheios de frases e diálogos memoráveis…“Roberto,mio parmo”… 😉
É um obra prima de atmosfera visual com muita poesia, uma história totalmente original, um universo único e com personagens absolutamente inesquecíveis que parecem pessoas reais. O que podem pedir mais ?

Cinco Planetas Saturno e DOIS Gold Award

     
Leva a minha classificação máxima de excepção porque é simplesmente um dos meus filmes favoritos de todos os tempos.
Melhor e mais original que isto não encontram tão cedo e além disso é passado num verdadeiro universo esquecido aqui mesmo ao pé de nós.

Ideal para quem já está farto de blockbusters actuais e quer realmente encontrar um filme que mais do que ser apenas uma boa história é uma verdadeira experiência para os sentidos se for visto nas condições que precisa para resultar.
E nem precisa de 3D para nada.

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A favor: os personagens são inesquecíveis, tem grande sentido de humor, um argumento totalmente original, os diálogos são memoráveis, a realização é perfeita, o tom poético é fantástico, está cheio de imagens fabulosas, não encontram melhores cenas com golfinhos em mais filme nenhum, o equilibrio entre o bom humor e os momentos dramáticos é fantastico, o trabalho dos actores é notável sem excepção, as cenas de mergulho são incrivelmente atmosféricas, a banda sonora é uma personagem á parte, consegue fazer parte de muitos géneros sem pertencer na realidade a nenhum, no entanto é capaz de ser um dos melhores filmes de ficção científica totalmente esquecidos precisamente porque não se nota o género a um primeiro visionamento, o final é perfeito, se gostam do mar este vai ser o filme da vossa vida a partir de agora.

Contra: como não segue qualquer regra narrativa a que o publico está  habituado no cinema americano embora seja um filme comercial muita gente irá detestá-lo pois não tem acção e nada na história nos é explicado de bandeja como acontece nos filmes de hollywood, muita gente irá ficar totalmente baralhada com o final (por isso revejam o filme pois está lá tudo), poderá ser confundido com um filme new-age por muita gente que odeia o estilo embora seja muito mais do que aparenta á primeira vista.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer horroroso norte americano mas que merece ser visto por ser tão ridiculo.
Nada neste trailer espelha a verdadeira atmosfera ou tipo de história do filme.

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TRAILER VERDADEIRO da versão original exibida em França e que depois ficou conhecida cá fora como o “Director´s Cut” quando na realidade é apenas a versão verdadeira e integral do filme tal como Besson a filmou.

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COMPRAR BLURAY – REGIÃO B (2) – EDIÇÃO UK
Esqueçam a edição em DVD pois depois da versão bluray só há uma maneira deste filme ser devidamente apreciado como merece. E esqueçam as cópias pirata. Ainda não vi nenhum rip a 1080p que se compare à qualidade deste bluray num televisor como o meu.

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Em baixo, a introdução do filme com os primeiros minutos. A história começa a preto e branco mas depois muda para cores quando a sequência introdutória com as crianças dá lugar á parte adulta da história.


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Saiu agora por altura do relançamento da versão longa em blu-ray um novo trailer e devem espreitá-lo pois além de ser enigmático e não revelar nada do filme, mostra muito bem qual  é a sua atmosfera e chega até a ser bastante mágico.
Cliquem para ver o novo trailer da versão longa.

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IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0095250

#(Click here for a shorter English version of this review)

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