“ A HISTÓRIA INTERMINAVEL” ( “Die unendliche Geschichte” / “THE NEVERENDING STORY” ) Wolfgang Petersen (1984) ALEMANHA

Tanto em livro como no cinema [“THE NEVERENDING STORY”] foi definitivamente a história de fantasia que mais marcou a minha imaginação, fez-me começar a gostar de romances de Fantasia, determinou o rumo profissional da minha vida e hoje é parte integrante do meu trabalho em termos de inspiração, pois há sempre um bocadinho de História Interminável em todos os meus desenhos de Fantasia.
É também ainda o melhor e mais completo livro de Fantasia que alguma vez li.

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E sim, é muito mais imaginativo que qualquer coisa que Tolkien tenha escrito; por uma simples razão, o mundo da História Interminável é um mundo imaginário criado de raíz e totalmente definido pela imaginação do autor.
Não é um local imaginário baseado em qualquer mitologia terrestre e toda a sua geografia é muito, muito mais do que apenas uma colecção de reinos baseados num contexto histórico povoado de elfos e orcs. Neste livro não se fala de elfos, de orcs ou de anões e mesmo assim funciona na forma como cria um universo único que nunca ninguém igualou até agora.
E contráriamente a certas opiniões da altura ( que nem sequer devem ter lido o livro ), o filme nem sequer adapta mal o romance original. Bem pelo contrário.
[“THE NEVERENDING STORY”] é A HISTÓRIA INTERMINÁVEL sim senhor.

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Não percebo bem como, mas muita gente até hoje continua a desconhecer que  [“THE NEVERENDING STORY”] é antes de mais um livro.
E não só é um livro como está editado em Portugal com o título “A HISTÓRIA INTERMINÁVEL” desde o início dos anos 80; tendo na altura sido um best-seller por cá até antes do filme ter chegado.
Talvez porque o romance original escrito pelo Alemão Michael Ende tenha arrebatado tudo quanto foram prémios de literatura no ano em que foi publicado e coleccionado tanta distinção que a partir de certa altura seria inevitável que alguém o tentasse passar para cinema.

PARTE I – DUAS VERSÕES

Provavelmente o mesmo número de pessoas que desconhecem que [“THE NEVERENDING STORY”] é adaptado de um livro certamente julgarão também que o filme é uma produção Americana ! Não é.
[“THE NEVERENDING STORY”] é cinema Alemão, tendo sido realizado na altura por Wolfgang Petersen que depois viria a mudar-se para Hollywood para realizar coisas que vão desde “Enemy Mine”, “The Perfect Storm” e mais recentemente “Troy”.
[“THE NEVERENDING STORY”] foi no entanto um título da sua fase ainda na Alemanha, tendo sido também o filme europeu mais caro da altura e a primeira produção criada aqui deste lado do oceano que tinha por objectivo competir com o que se fazia na época em Hollywood em termos de efeitos especiais.

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Outra coisa que muito pouca gente sabe é que a versão que todos nós conhecemos e que passou no cinema é na verdade a versão curta e Steven Spielberg esteve envolvido na montagem embora não esteja creditado no filme.
Isto porque Hollywood adquiriu os direitos de distribuição através da Warner Brothers e os americanos pediram que se criasse uma montagem “mais dinâmica” de modo a agradar ao público americano pois argumentaram que o – cut – original do filme quando este ainda era falado em Alemão poderia ser demasiado aborrecido para o público gringo.

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O que mais uma vez não se entende pois segundo Petersen e Spielberg, a montagem “ocidental” tem apenas uns 6 minutos a menos do que a versão original.
E desenganem-se aqueles que pensam que foram cortadas muitas coisas do filme.
Na realidade o que a “montagem ocidental” fez foi aparar algumas cenas, reduzindo uns segundos aqui, outros  ali e tornar o ritmo da história mais acelerado… o que me deixa ainda mais perplexo…
Seria mesmo necessário ?!…

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Outra diferença entre a versão original ( falada em Alemão ) e a versão que todos nós conhecemos é a banda-sonora.
Hoje em dia parece quase impossível, mas quando o filme foi lançado nas salas Alemãs já com enorme sucesso, ainda não tinha incluída a música de Georgio Moroder nem a canção “The Neverending Story” interpretada por LIMAHL existia !!
Na verdade nem estava nos planos.

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Quem sugeriu a inclusão de uma canção POP foi precisamente Steven Spielberg porque o canal de televisão MTV tinha acabado de ser inaugurado na altura; haviam ainda muito poucos videoclips produzidos para o alimentar e Spielberg achou que seria uma excelente ferramenta de marketing se nos Estados Unidos existisse umteledisco com cenas do filme a passar na televisão várias vezes ao dia.
O que resultou em pleno pois se [“THE NEVERENDING STORY”] ainda hoje é recordado até por quem nunca viu o filme ou sequer imagina que existe um livro , isso deve-se á icónica canção Pop interpretada por Limahl que ainda hoje continua a fazer uma pipa de massa em direitos de autor sendo uma das canções pop de maior sucesso da história da música popular nunca tendo deixado de tocar em todas as rádios mundiais até hoje e sendo das mais tocadas no spotify actualmente. Até Noah Hathaway 30 anos depois regressou ao papel por um dia para comemorar o sucesso da melodia.

A canção catapultou na altura o filme para um sucesso estrondoso não só nos Estados Unidos mas por todo o mundo e o filme por sua vez manteve a canção viva durante todas estas décadas desde que saiu das salas de cinema e ganhou segunda vida nas várias edições em video que se seguiram ao longo dos anos.

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Foi o casamento perfeito e tudo se deve apenas a uma sugestão de Spielberg quando estava a ajudar Wolfgang Petersen a remontar o filme para distribuição americana.
Por causa disso, o famoso medalhão “AURYN” original que se vê no filme hoje é parte da colecção privada de Spielberg tendo-lhe sido oferecido por Petersen como agradecimento por ter sido essencialmente o responsável pelo sucesso do filme fora da Alemanha.

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A banda sonora original continha apenas a lindíssima partitura orquestral do compositor Alemão Klaus Doldinger a que foi adicionado o material extra escrito por Giorgio Moroder num processo colaborativo que segundo consta foi bastante criativo e agradável para ambos os músicos embora tenham vindo de áreas completamente diferentes. Talvez por isso a banda sonora para [“THE NEVERENDING STORY”] ainda hoje resulte tão bem, até nas partes mais electrónicas que nem por isso datam o filme pois a integração com a partitura orquestral é perfeita.

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Grande parte da permanente magia do filme na versão que todos conhecemos deve-se bastante ao resultado desta colaboração entre um músico clássico e um compositor pop que desta vez resultou em pleno.

PARTE 2 – UM FILME DISNEY NÃO !!

Quem parece não ter gostado nada do resultado foi o escritor Michael Ende e isto sempre foi algo que me intrigou e surpreendeu por completo.
Michael Ende detestou tanto a adaptação ao cinema do seu livro que inclusivamente tentou em tribunal que este fosse impedido de ser lançado nas salas tendo requisitado que se destruíssem todas as cópias.

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Embora Michael Ende compreendesse que seria impossível para a tecnologia da altura reproduzir no grande écran tudo o que havia de extraordinário no livro ( e há ) e portanto até fez algumas concessões em termos de mudanças na história, aquilo que o deixou mesmo furioso foi o final do filme.
Pessoalmente compreendo-o perfeitamente. Ainda hoje é precisamente para mim a grande e indesculpável falha em [“THE NEVERENDING STORY”] enquanto adaptação do livro e nesses dois minutos finais quase que coloca este primeiro filme ao nível horrível a que as sequelas ( já de produção americana ) chegaram para desespero e raiva de todos aqueles que como eu conhecem o livro de trás para a frente.

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Michael End não gostou nada que [“THE NEVERENDING STORY”] terminasse numa forma típica de um filme Disney. A ideia de que Bastian trazia para a nossa realidade uma criatura de Fantasia apenas para pregar um susto aos putos que o atormentavam no início é algo que Michael Ende não podia aceitar por vários motivos.
Primeiro porque a sua história original é tudo menos uma Fantasia Disney; se lerem o livro irão notar que contém uma atmosfera assombrada que se vai tornando cada vez mais negra e até algo gótica á medida que a novela avança até ao seu final.
Um final fofinho estilo Disney seria algo que arruinaria as hipóteses de uma continuação coerente se viesse a existir uma adaptação da segunda parte da novela, pois vai totalmente contra tudo o que acontece na segunda parte do livro.

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Sim, outra coisa que muito pouca gente sabe é que [“THE NEVERENDING STORY”] o filme; apenas cobre metade do livro. Menos de metade até.
Aliás, [“THE NEVERENDING STORY”] em filme é praticamente a introdução para aquilo que depois se irá passar de importante no resto da história. Por isso Michael Ende entrou em parafuso total e tentou impedir que o filme fosse lançado com aquele final absolutamente idiota e popularucho ao pior nível Disney-Pimba.
Na verdade, segundo o documentário que está no Bluray, Michael Ende não ficou também nada satisfeito quando Petersen foi escolhido para realizar o filme , pois Ende queria que tivesse sido Akira Kurosawa a fazer a adaptação cinematográfica !!!
(What ?!!)

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Se Michael Ende achou esta primeira adaptação um mau produto, ainda bem que já não estava vivo para ver o que depois Hollywood fez com o resto do seu livro, na sofrível sequela do filme em 1990 e principalmente na “terceira parte” de 1994.
Quem nunca leu o livro nem imagina, mas [“THE NEVERENDING STORY”], A HISTÓRIA INTERMINÁVELo livro, deverá ser a novela original mais destruída, mais estragada, devastada e mal adaptada que já apareceu na história do cinema americano.
E sim, desta vez é mesmo culpa do cinema americano.

PARTE 3 – A DESTRUIÇÃO INTERMINÁVEL

Wolfgang Petersen na Alemanha, pode ter criado uma adaptação imperfeita da primeira metade do livro, ter inserido a martelo um final para tornar o filme mais comercial e tudo o que quiserem apontar da adaptação genérica que na altura teve meios para produzir; mas quando comparado com o que Hollywood depois fez com o material naquilo que supostamente serão as sequelas … meus amigos…
É de ler… e depois ver…
Para não querer crer !

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Nada do que eu possa descrever aqui conseguirá demonstrar o quanto este livro foi pura e simplesmente desintegrado nas sequelas americanas.
E quando eu pensava que nada poderia ter sido pior que o terceiro filme, surge do nada a “série televisiva” do inicio de 2000 !… Essa produção canadiana foi o último prego no caixão da pior adaptação de um livro ao cinema que já alguma vez foi tentada.

PARTE 4 – A ( BOA ) ADAPTAÇÃO POSSÍVEL.

Para mim A HISTÓRIA INTERMINÁVEL é o melhor livro de fantasia de fantasia jamais escrito. Não tem sequer 400 páginas mas contém um mundo verdadeiramente único, com uma geografia imaginária enorme, cheia de ambientes incrivelmente imaginativos e uma história que inclusivamente interage com o próprio leitor.
Tal como vocês viram no filme quando Bastian começa a estar ligado ao conteúdo do livro, também a novela original de Michael Ende está carregada de momentos que ligam o leitor áquilo que está a ler e em muitos mais momentos do que no cinema.

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Não posso detalhar como, para não estragar o prazer da leitura a quem quiser comprar o livro, mas se o filme [“THE NEVERENDING STORY”] original continua a resultar em termos de encantamento ainda hoje, é porque conseguiu traduzir um bocadinho dessa magia visualmente na forma como na parte final também liga o espectador ao filme.
Portanto, apesar de eu concordar com a reacção de Michael Ende em relação aos dois minutos finais, penso no entanto que Wolfgang Petersen mais a sua equipa de produção acertaram em cheio naquilo que colocaram no écran. E sem CGIs.
Aliás se o mundo visual neste filme parece tão real é precisamente porque nada foi criado em computador pois as animações digitais felizmente ainda não existiam e portanto todos os ambientes parecem realmente locais reais e não desenhos animados.
É certo que o livro tem descrições de ambientes maravilhosos mas até o próprio Michael Ende compreendeu que a tecnologia da altura não permitia uma adaptação visual linha por linha.
Pelo menos também ainda não se parece com um videogame mas sim com um verdadeiro livro ilustrado.

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[“THE NEVERENDING STORY”] em praticamente 80% do que mostra, adapta quase, quase na perfeição a primeira metade do livro.
É certo que saltou alguns capítulos, mas tal como diz Petersen no bluray; na altura, por exemplo seria impossível filmarem  a cena da aranha composta por milhares de aranhas pois o CGI não existia e a animação tradicional só iria tornar o filme pobre visualmente.
Embora esta tenha sido escrita foi riscada da produção. Por esse motivo é que vocês podem ver a cena seguinte ao que acontece nos Pântanos da Tristeza começar com a bruxa Urgl a dar uma injecção ao dragão Falkor. Essa cena está lá porque inicialmente o plano seria terem filmado a parte em que o a aranha pica o dragão com um veneno, mas como diz Petersen seria impossível fazer uma cena assim resultar na época.

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Uma outra cena eliminada pertencia a uma sequência mais longa que está no livro e onde Falkor e Atreyu encontram quatro gigantes; cada um correspondente a um ponto cardeal a lutarem nos céus criando um enorme tufão com os seus sopros.
Também essa cena foi riscada e por isso só vemos Atreyu e Falkor perderem-se numa vulgar tempestade, acabando Atreyu por cair de cima do dragão e ir parar à cidade perdida.
Portanto, por muito que eu gostasse de também ter visto o livro fielmente representado no filme, a verdade é que na época tal não era possível tecnicamente.
Nem sequer por Hollywood, quanto mais por uma equipa Alemã que não tinha qualquer experiência em cinema de efeitos especiais e mesmo assim conseguiu um verdadeiro milagre visual que ainda hoje se aguenta tecnicamente em bastantes partes do filme.

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Em termos visuais [“THE NEVERENDING STORY”] é o livro !
Pode não adaptar perfeitamente as descrições da novela, mas a atmosfera essa é absolutamente fiel aquilo que se passa na primeira metade da história.
Tal como Blade Runner não adapta de todo o romance original mas acaba por ser 100% fiel ao espírito do livro, também em [“THE NEVERENDING STORY”] aconteceu o exactamente o mesmo.
Por exemplo, a Torre de Marfim no livro é muito mais imponente em termos de arquitectura. Na verdade se virmos o filme em bluray agora notamos que a primeira imagem que aparece da Ivory Tower está realmente carregada de pequenos pormenores subjectivos que tentam captar alguma da majestade com que o local é descrito no livro.

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No livro a Torre de Marfim é uma cidade imensa, o coração da terra de Fantasia, o ponto central onde todas as raças acorrem para conseguir uma audiência com a Imperatriz Criança.
No filme apesar de se notar ser uma construção imensa, nunca houve espaço para mostrar que a Torre é na verdade uma cidade enorme com imensas culturas e criaturas diferentes de todo o universo resultante da imaginação humana a habitarem nos seus muitos sectores diferentes.
No filme a Torre de Marfim é essencialmente uma torre com um topo onde ficam os aposentos da Imperatriz Criança com a câmara de audiências e pouco mais.

PARTE 5 – INSPIRAÇÃO SEM FIM

No dia em que vi este filme no cinema pela primeira vez aos 14 anos, o filme acabou e eu em vez de voltar para casa, voltei para a sala para o rever com o último dinheiro que a minha mãe me tinha dado; só para ver novamente aquela paisagem que aparece no écran por menos de cinco segundos mas que para sempre definiu o meu imaginário.
A Torre de Marfim para mim é a definição perfeita da Fantasia enquanto género.

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Esta imagem da Torre de Marfim no cinema mudou a minha vida.
Todos os meus desenhos ainda hoje contêm um bocadinho deste mate-painting ao ponto de até a paleta de cores que uso inconscientemente para tudo estar sempre baseada na forma em que esta imagem foi pintada há trinta anos.
Foi o – mate painting – que mais me marcou até hoje e a imagem que me fez decidir que mal ou bem eu teria que aprender a pintar coisas assim.
Quando li o livro a seguir, apesar de ter notado que a descrição do local está bem mais complexa no romance, a verdade é que para mim a única Torre de Marfim será sempre a que o filme mostra pela forma como define perfeitamente o universo de  [“A HISTÓRIA INTERMINÁVEL”].
Mas afinal quais são as diferenças entre o filme e o livro ?

PARTE 6 – ALTERAÇÕES

Sem entrar em “*Spoilers*” posso referir as seguintes diferenças:

NO LIVRO – Atreyu (Atreíu no livro) é uma criança do povo dos Pele-Verde e como tal, verde.
NO FILME – Um rapazinho normal com pinta de índio americano em versão caucasiana bronzeado; ( o teste de cor verde não resultou e a ideia foi abandonada ).

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NO LIVRO – Caronte, é um Centauro enviado até ás planícies verdes onde vive Atreyu para lhe atribuir a missão dada pela Princesa Criança.
NO FILME – Atreyu viaja até á Torre de Marfim e Caronte é interpretado pelo actor negro Moses Gunn com uma espécie de crista de tubarão na cabeça; ( conta Wolfgang Petersen que na altura tiveram sérias dificuldades em conseguir criar várias raças de seres pois não havia CGI e tudo tinha que ser feito com roupas e máscaras simples e baratas ).

NO LIVRO – Artax o cavalo fala com Atreyu.
NO FILME – É apenas um cavalo normal;  ( no filme nunca resultaria e como diz Petersen ficaria demasiado ridículo visualmente distraindo por demais as atenções ).

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NO LIVRO – Depois do Pântano da Tristeza, é Atreíu que encontra Falkor e o consegue salvar da morte quando está prestes a ser consumido por uma aranha gigante formada por milhares de aranhas pequenas, Igramul-o-múltiplo.
NO FILME – Falkor salva Atreyu no Pântano da Tristeza.

NO LIVRO – O dragão da sorte chama-se Fuchur.
NO FILME – O dragão da sorte chama-se Falkor; ( pessoalmente adoro Falkor ).

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NO LIVRO – Existem três portais no caminho para o Oráculo do Sul.
NO FILME – Apenas dois e ao contrário do que acontece no livro onde uma das melhores cenas é passada no Óraculo do Sul , no filme os portais são todos o mesmo.

NO LIVRO – Não existe a cena perfeitamente inútil em que Atreyu mais tarde encontra um Rockbitter deprimido por ter perdido os amigos para o Nada. Não percebo para que filmaram aquilo quando podiam ter incluído outras coisas mais simples que até estavam no livro e tudo e não foram inseridas…
Etc.

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Há muito mais por descobrir mas por isso recomendo vivamente que leiam o livro, até porque nem tudo são diferenças ou más escolhas na versão cinematográfica.
Muito pelo contrário.

PARTE 7 – A IMPERATRIZ CRIANÇA

Se há uma coisa em que [“THE NEVERENDING STORY”] acertou em cheio foi no casting. Apesar de haver diferenças físicas ( Bastian no livro é um puto gordo ); o elenco é absolutamente perfeito para dar vida aos personagens do livro.
Desde o velho livreiro que não podia ser melhor, até aos personagens secundários fascinantes como o duende, o cavalheiro do caracol de corrida, ( até Rockbitter ), passando por Bastian, Atreyu ou  Enguivuk e Urgl ( o fantástico par do cientísta e da bruxa ), todos os interpretes na minha opinião foram a escolha perfeita pois captam por completo o espírito dos personagens originais do livro e nem me parece que Michael Ende tenha tido qualquer objecção quanto a isso.
Especialmente quanto á  escolha da Imperatriz Criança.

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Dentro do género da Fantasia ou FC que adapte uma novela original, que me lembre acho que não deve haver casting mais perfeito do que a escolha da jovem Tami Stronach para interpretar a Imperatriz Criança.
Se há uma criança que nasceu para interpretar este papel foi esta. E sem qualquer experiência profissional carrega de forma espectacular um dos momentos mais emocionais da história.
Visualmente a produção não poderia ter acertado mais no design do personagem também.

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Ainda hoje é o ponto alto de todo o filme.
Em termos de interpretação está absolutamente perfeita e é realmente a personagem do livro em todos os sentidos. Na minha opinião até a melhora.
Depois de termos visto o filme tornou-se completamente impossível lermos o livro sem imaginarmos esta Imperatriz Criança.
Vale a pena verem as filmagens da cena em que ela olha para a câmara a chorar e que estão no Bluray. Na reacção de Petersen também ele banhado em lágrimas atrás da câmera nota-se mesmo que estava a pensar : – “Tenho filme ! “

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E já agora…
Para toda a gente que sempre se perguntou o que raio grita Bastian da janela quando dá um novo nome á imperatriz, o que ele grita pelo meio da tempestade é  “- MOONCHILD-“ no livro – FILHA DA LUA.
Petersen quis colocar isso no filme apesar de na primeira metade do livro esse pormenor não ser relevante, apesar de ser importante no livro para aquilo que se seguiria.
Como não era relevante para a versão cinematográfica, Petersen colocou o grito no meio de um trovão para tornar o momento ainda mais enigmático e colocar o público a falar sobre o filme.
E resultou.

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Petersen no comentário audio, confirma que Bastian grita “Moonchild”, embora eu já tivesse suspeitado pois sei de cor essa cena no livro e sempre me pareceu exactamente reproduzida no filme.
Na segunda metade do livro – Filha da Lua – terá um papel bem mais importante, mas infelizmente as sequelas americanas desta “primeira parte” Alemã jogaram todo o livro por completo pela janela e inventaram o que quiseram.
Pior ainda, infantilizaram por completo uma história que no livro até vai ficando cada vez mais pesada… mas sobre isto hei de falar na review do segundo filme um destes dias.
A segunda parte apesar de ainda ter tido alguma participação Alemã infelizmente foi toda decidida por executivos dos estúdios de Hollywood e foi o pior que lhe poderia ter acontecido.

PARTE 8 – FILMES PARA CRIANÇAS…

Porque isto já vai longo, resta dizer que visualmente [“THE NEVERENDING STORY”] continua a ser único dentro do género da Fantasia.
Tanto em livro como em filme nunca apareceu nada assim e pertence acima de tudo a uma Era onde ainda se faziam filmes de fantasia que não tratavam as crianças por burras nem aborreciam de morte os adultos. E o cinema de Fantasia ainda não era confundido com um videogame !!
Parece quase impossível pensarmos em tal coisa hoje em dia.

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O grande trunfo de [“THE NEVERENDING STORY”] foi sempre o grande aquilíbrio entre uma aventura que as crianças podiam apreciar e a profundidade filosófica dos próprios conceitos que o filme aborda. De forma mais ligeira que no livro, mas estão lá e para isso temos de agradecer a Wolfgang Petersen por ter percebido que o livro não era de todo apenas um livro infantil mas sim uma história passada num mundo tão real como o nosso.

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Apenas está situada num local onde a Fantasia é uma realidade e como tal, Petersen tratou esse mundo imaginário como se fosse um um local verdadeiro.
O design do mundo de Fantasia definiu um estilo, é extremamente variado, acerta em cheio nos ambientes do livro e consegue transportar-nos totalmente para um mundo imaginário que no entanto nunca se sente como sendo artificial.

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O design das criaturas está fantástico, com destaque para Rockbitter e Falkor que não podiam estar melhor; Morla está absolutamente fiel ao personagem do livro e quanto á Imperatriz Criança está tudo dito pois melhor seria impossível.
Com os meios á disposição na altura é um milagre que o design e o ambiente de [“THE NEVERENDING STORY”] tenha conseguido acertar em tanta coisa.
Neste aspecto o filme está 100% fiel ao espírito do livro.

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Em termos de falhas, é certo que isto é realmente apenas a tentativa possível de se adaptar um romance impossível de ser bem adaptado na época. As cenas do guião que não puderam ser filmadas fazem realmente uma mossa muito visível na própria montagem do filme pois por vezes parece demasiado fragmentado, com cenas onde tudo acontece demasiado rápido ou demasiado devagar.
Mas nem por isso [“THE NEVERENDING STORY”] deixa de ter uma atmosfera absolutamente perfeita ( e perfeitamente reproduzida do livro ) que nos transporta verdadeiramente para o interior do romance por muito que o escritor não tivesse concordado com isso na altura.

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E sim, o final é estúpido, mas mais uma vez…se compararmos com a sequela Americana nessa “segunda parte” já não há muito que um adulto possa apreciar por muito que goste de ler romances de Fantasia.
A sequela americana é claramente um filme para crianças e não perceberam de todo que o que tornou o primeiro filme especial foi o facto de ser uma história de Fantasia para o público que gosta de Fantasia independentemente da idade e não era um filme para putos estúpido; muito menos pareceu-se com um videogame.

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CLASSIFICAÇÃO

Bem, o que dizer quando a título pessoal este filme teve tanta influência na minha vida ?
Acima de tudo é uma história sobre o prazer da leitura, sobre a descoberta dos novos mundos que se podem encontrar dentro dos livros e sobre a magia que há escondida num romance á espera de quem o leia.

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É o filme perfeito em termos de mensagem que no entanto nunca atira nada á cara do espectador nem lhe tenta dar lições.
Talvez um dos raros filmes sobre a Magia da Leitura que poderá ser ideal para colocar os mais pequenos com vontade de ler qualquer coisa também.
De resto acho que ficou tudo dito atrás e como tal só poderia levar a classificação máxima neste blog.

Cinco Planetas Saturno e um Gold Award porque sim.

     
E porque agora depois disto acho que lá vou ter que reler o livro e rever o filme novamente… como seu eu já não soubesse tudo aquilo de cor…

A favor: visualmente acerta completamente na atmosfera do livro, alguns efeitos especiais continuam muito bons, a variedade de ambientes torna o mundo de Fantasia imenso apesar do filme só ter 90 minutos, contém várias criaturas excelentes e inesquecíveis, a imperatriz criança, a torre de marfim, os mate-paintings, as cenas no espaço com os asteróides, a banda sonora, apesar de tudo mantêm-se fiel ao espírito do livro na sua totalidade em muitos aspectos.

Contra: O final “Disney” é uma estupidez ( mas percebe-se que seria dificil de acabar o filme de outra forma por causa do que faltava adaptar do livro ainda ), a montagem do filme não é das melhores e sente-se uma grande fragmentação por causa de certas cenas ausentes, repetiram o mesmo modelo nos portões do Óraculo para poupar dinheiro quando no livro as cenas nesse local são muito mais fascinantes, tem uma cena entre Atreyu e Rockbitter lá para o final que  não está no livro nem serve para nada só atrasando o ritmo narrativo do filme.

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NOTAS ADICIONAIS

Provavelmente não fazem ideia, mas [“THE NEVERENDING STORY – A HISTÓRIA INTERMINÁVEL”] foi o primeiro filme a ser colocado á venda em Portugal em VHS, naquilo que na altura se convencionou designar por “VENDA DIRECTA”; um conceito que aborreceu muita gente.
Numa altura em que havia um clube de video em cada esquina por este Portugal fora, numa altura em que alugar VHS parecia ser uma boa maneira de ganhar dinheiro quando foi anunciado que em breve também os filmes iriam ser licenciados para serem vendidos directamente ao público a polémica estourou com dezenas de reclamações e tentativas de impedir que o cinema fosse democratizado para lá do aluguer no clube de video.
Este filme e “E.T. O Extraterrestre” foram os dois primeiros VHS á venda. E.T. primeiro apenas á venda em clubes de video e logo a seguir a HISTÓRIA INTERMINÁVEL nos hipermercados.

TRAILER

VIDEOCLIP  da canção por Limahl

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O ELENCO ANTES e AGORA

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Se gostam do filme, esta é a edição a comprar. Com muitos documentários onde podem ficar a saber tudo sobre o filme, comentário audio do realizador ,etc.
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COMPRAR LIVRO EDIÇAO PT
Por qualquer motivo estúpido não só em Portugal como lá fora também nos últimos anos este romance tem sido lançado sem a inclusão das ilustrações originais e que são absolutamente fundamentais para criar aquela sensação de ligação do leitor com o que acontece no livro.
A Editorial Presença tinha no início dos anos 80 uma edição perfeita que apareceu de novo em 1988 e essa contém ainda os desenhos que introduzem cada capítulo que não se percebe de todo porque já não constam nas edições recentes.
A mesma editora lançou há pouco tempo uma nova edição do livro mas mais uma vez já não traz as ilustrações. Apenas tem o livro impresso a duas cores ( como é necessário para a história funcionar ) mas ignoraram por completo a importância dos desenhos. Não percebo porque não se limitaram a re-editar a edição excelente que já tinham…
De qualquer forma não deixem de ler o romance. MESMO.
http://www.fnac.pt/A-Historia-Interminavel-Michael-Ende/a57691

BANDA SONORA
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https://www.youtube.com/watch?v=heHdOTt_iGc

IMDb
http://www.imdb.com/title/tt0088323

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Filmes semelhantes de que poderá gostar:

capinha_vikingdom capinha_johncarter capinha_starcrash capinha_mythica capinha_ladyhawke capinha_neverending2

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One thought on ““ A HISTÓRIA INTERMINAVEL” ( “Die unendliche Geschichte” / “THE NEVERENDING STORY” ) Wolfgang Petersen (1984) ALEMANHA

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