“SOLARIS” Steven Soderbergh (2002) EUA

O “SOLARIS” original de 1972 deverá ser provavelmente o meu filme-de-autor favorito. Secante como o raio, mas por qualquer motivo é um daqueles títulos que me ficou na memória desde que um dia o vi noite dentro quando era miúdo uma vez na RTP2 lá pelas bandas de 1981-82 e o visual do corredor da estação espacial nunca mais saiu da minha imaginação.
[“SOLARIS”], o remake de 2002 tem a particularidade de ser um daqueles filmes de ficção-científica que eu adoro mas do qual me esqueço mal acabo de o ver e só me volto a lembrar dele uns cinco ou seis anos depois.

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Tem sido assim desde que o vi em cinema e desde que comprei o dvd quando saiu em Inglaterra.
Mas [“SOLARIS”] na sua versão de 2002 realizada pelo “autor” Steven Soderbergh não é propriamente um filme para as audiências pipoca. 
É verdadeiramente único porque será porventura o único título de ficção-científica moderno que ainda foi mesmo feito para um público de ficção-científica e não para agradar ás audiências genéricas que apenas consomem o êxito da moda impingido por Hollywood nessa semana.
Não importa que seja terror, drama, fantasia, thriller; hoje em dia não há praticamente diferença nenhuma pois todos são filmes apontados ás mesmas audiências em manada.

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Antigamente antes de Spielberg, Lucas e Zemeckis terem essencialmente inventado o – blockbuster moderno – , o cinema estava mesmo divido em géneros.
Se uma pessoa ia ao cinema ver um Western, um drama, um filme de terror ou um filme de ficção-científica era porque muito provavelmente gostava mesmo de um desses géneros e sabia que o que ia ver seria um verdadeiro título desse estilo em particular.
Actualmente os filmes são produzidos essencialmente para o público mais genérico possível e independentemente do género o que interessa para os estúdios é meter o maior número de gente nas salas.
Como tal todos os títulos que saiem, mesmo aqueles que nem são blockbusters são marketizados da mesma forma, apresentados como a melhor coisa do mundo e que TODA A GENTE tem que ver.

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Talvez seja essa vertente generalista que tem não só retirado a imaginação ao cinema americano mainstream dos últimos anos como será também grande responsável por muita da censura ou auto-censura com que Hollywood produz os seus títulos actualmente.
Hoje um filme é para ser visto por muita gente não interessa se gostam do género ou não e por isso há que ter cuidado para não ofender ninguém. Especialmente nos States.
[“SOLARIS”] não é um filme para o público “cinéfilo” de cinema de centro-comercial, o que o atira imediatamente para uma espécie de limbo existencial.

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Na verdade, não é um filme comercial no sentido debiloide, mas também não será propriamente cinema-de-autor, pois embora Soderbergh seja talvez aquilo que Hollywood tem mais parecido com um “autor” de cinema os seus filmes estão realmente num nicho á parte, nem que seja pela variedade.
Talvez por isso mesmo, [“SOLARIS”] tenha um trailer que engana toda a gente o que fez com que tivesse falhado tão estrondosamente nas salas. O público pode ser braindead mas não gosta de ser enganado e imediatamente passou a palavra de que o trailer passava a ideia errada.

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[“SOLARIS”] não tem NADA a ver com o que aparece no trailer em termos de tom. É uma história romântica concerteza e bastante romântica até, mas não é o filme de romance ligeiramente fofinho que aparenta ser no marketing que foi desenvolvido á sua volta.
Este trailer é uma obra prima na forma como sem deixar nada de fora daquilo que está realmente em [“SOLARIS”], pela montagem consegue passar a ideia de que o filme é algo completamente diferente do que na realidade as pessoas depois irão encontrar.

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[“SOLARIS”] não é cinema comercial nos moldes populares e é um filme frio.
Não tão frio como o título Russo original de 1972, que esse sim chega ser gélidamente  ( e aborrecidamente) insuportável; mas não é de forma alguma a história de amor em moldes de Hollywood que o trailer tentou vender ao público.
[“SOLARIS”]  é mais uma história de amor metafísica, onde se discute o sentido da vida, a existência da morte e até se teoriza sobre a sua própria natureza sendo por isso uma história de amor complexa.

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Um filme de ficção-científica fabulosamente atmosférico e completamente hipnótico que assenta sobre um universo contemplativo e centrado numa dramática história de amor com dois protagonistas totalmente carismáticos.
Tem o condão de fazer esquecer George Clooney por detrás do personagem, pois a partir de certa altura ele é mesmo Kelvin; o astronauta que reencontra a sua falecida esposa a bordo de uma estação espacial bem longe da Terra.

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[“SOLARIS”] costuma ser atacado por algumas pessoas por ser essencialmente uma história de amor no espaço quando essa vertente romântica nem sequer é particularmente evidente no livro, mas a verdade é que aqui funciona.
Não apenas porque os amantes gostam muito um do outro mas porque coloca a questão sobre até que ponto uma entidade extraterrestre poderá ser considerada uma segunda chance. E até que ponto amará de verdade. 
Quem a enviou ? O que estará para além da morte ? Será uma ilusão criada por uma raça extraterrestre ou uma verdadeira reencarnação da pessoa original ? Como ?!
Não esperem no entanto respostas a estas perguntas, [“SOLARIS”] é um filme sobre questões e é nisso que esta história de amor brilha.

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A magia do filme está nas perguntas que lança e não nas respostas que dá, embora estas estejam realmente espalhadas ao longo de todo o argumento; apenas não estão evidenciadas uma a uma como é costume nos tipicos argumentos americanos onde tudo tem de ir de A a Z.
No entanto, o filme não deixa as pessoas penduradas como pode parecer a um primeiro visionamento. Apenas pede que o espectador se envolva realmente na história e comece a prestar atenção em tudo, mas mesmo tudo desde o início para poder tirar a conclusão final sem necessitar que o argumentista lhe explique o que aconteceu como se faz ás crianças.
Por isso enfureceu muitos espectadores de cinema-pipoca. Daqueles que gostam de ter tudo explicado no final e não perceberam que a explicação está na verdade ao longo de todo o filme e não apenas no fim.
 Como estava tudo a mascar pipocas á espera que chegasse qualquer cena de porrada ninguém prestou realmente atenção ao que o filme mostra.
Na altura em que vi isto no cinema, de um grupo de pessoas só eu adorei o filme.

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[“SOLARIS”] nunca foi  cinema para o grande público e é o próprio James Cameron que avisa logo toda a gente no documentário promocional da HBO que correu as televisões e que está como extra no dvd.
[“SOLARIS”] é uma história baseada num dos grandes romances de FC saídos da Rússia e só tem como objectivo agradar ao público da ficção-científica, tudo o resto serão extras.
Mesmo assim a peça promocional explica em detalhe o filme todo !!

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E sim, [“SOLARIS”]  é produzido por James Cameron ( esteve para ser realizado por ele ); o que levou muita gente a concluir que isto seria mais uma aventura de porrada espacial em modo Terminator numa estação espacial talvez; ou quem sabe um filme de terror estilo Alien, tal como o enigma parece indicar quando Kelvin chega a bordo da estação espacial.
Não é nada disso.
O suspense vem de outro lado e não tem acção, aventura, vilões, tiros ou extraterrestres que comem pessoas.
 Como bem avisa James Cameron, [“SOLARIS”] não é um blockbuster mas sim uma nova versão de um dos mais importantes livros de ficção-científica.

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O livro original escrito por STANISLAW LEM é um dos romances de FC que mais vezes li e reli. É o tipo de livro que de dois em dois anos se tenho o azar de pegar nele para espreitar fico logo agarrado e tenho de continuar a ler até ao fim, por isso será provavelmente um dos meus livros favoritos do género. Já perdi a conta das vezes que o levei para ler na praia.
Curiosamente nem a primeira versão Russa de 1972 realizada por Tarkovsky nem esta segunda versão de 2002 realizada por Soderbergh adaptam bem o livro.

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A versão de 1972, é intensamente cerebral; toda a parte envolvendo a história de amor é mais um pretexto para angustiantes análises filosóficas do que outra coisa qualquer e como resultado a primeira adaptação do livro a filme é extremamente intelectual naquele pior ( ou melhor ) dos sentidos.
A versão de 2002 apesar de ser uma produção claramente filmada por Hollywood, tem no entanto imensos tiques de cinema-de-autor na forma como está realizado e montado; embora na verdade assente todo o enigma na história de amor entre os personagens Kelvin e Rheya.
Não da forma suave que aparece no trailer mas com uma abordagem intensamente dramática e até realista ao extremo.
Até a música do trailer não tem nada a ver com a verdadeira banda sonora hipnótica do filme ).
De qualquer forma ambos os filmes são frios, o que sempre foi algo que me deixou surpreendido.

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Isto porque o romance original pode conter todas as discussões metatafísicas que estão em ambos os filmes mas nunca se sente como uma história intelectual naquele sentido mais erudito que as adaptações insistem em tentar reproduzir.
Parece que para os dois realizadores, todos os conceitos abordados na história só funcionam se visualmente o filme for muito cerebral e “inteligente”.
O livro não é assim.
Está bem que no caso da versão Russa a coisa até tenha o seu contexto cultural da época em que foi filmado, mas a escolha de Soderbergh em tentar manter este tipo de atmosfera na minha opinião só fez com que os críticos da critica especializada mais negativa tivessem mesmo munição para comparar [“SOLARIS”]  de 2002 com “SOLARIS” de 1972 e claro ficaria sempre a perder pois para a crítica iluminada em geral, ( mesmo para quem nunca viu o filme ) é o mesmo que comparar “2010 O ANO DO CONTACTO” com a primeira parte “2001 ODISSEIA NO ESPAÇO” de Kubrik. Porque sim.

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[“SOLARIS”] poderia ter sido um excelente filme de ficção-científica na mesma sem precisar de tentar ser tão clínico.
O romance para além de uma quantidade de pormenores fascinantes sobre o futuro da humanidade e da exploração espacial em vez de apresentar uma aura fria tem na verdade um excelente ambiente misterioso e filosoficamente enigmático.
Stanislaw Lem em 1972 odiou o que Tarkovsky fez com o seu livro porque o escritor nunca tinha pensado nele como algo tão cerebral e muito menos como sendo a história gélida e essencialmente erudita que perpassa no primeiro filme.
Por isso Lem se recusou a ver a versão de Soderbergh em 2002, afirmando na altura que um filme não substituirá nunca o romance original e são produtos distintos por demais para poderem ser comparados.

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Se no entanto esquecermos que isto é baseado num livro, [“SOLARIS”] por si só, enquanto filme de ficção cientifica para um publico adulto que conheça bem o género na minha opinião é um triunfo em todos os aspectos.
A história é hipnótica, os cenários são fantasticamente “reais” e todo o ambiente da base não podia estar melhor. A história de amor embora muito dramática e – melancólica – dá imensa alma aos personagens e toda a vertente extraterrestre está particularmente bem explorada.

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[“SOLARIS”] é capaz mesmo de ter uma das melhores entidades extraterrestres de sempre. Não é para mais que o seu conceito já tenha aparecido em tudo o que são séries de TV e num par de filmes também.
O filme conta a história de Kelvin um psiquiatra terrestre cujo a mulher morreu há alguns anos, o que faz com que este viva uma existência cinzenta e á deriva afectado pela sua perda.
Um dia é contratado pelo Governo para investigar o que se passa a bordo da estação espacial SOLARIS, um complexo cientifico que foi colocado em órbita de um estranho novo planeta descoberto e de onde têm partido enigmáticas mensagens da tripulação que se recusa a abandonar o local apesar da missão ter sido abortada há meses.

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Kelvin ao chegar depara-se com situações enigmáticas que os tripulantes se recusam a explicar até que este tenha experienciado o que lhes está a acontecer.
Kelvin começa a duvidar da sanidade mental de toda a gente , até que uma noite descobre que a sua falecida mulher também habita agora a estação sem fazer ideia de como lá foi parar ou onde esteve antes.

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[“SOLARIS”] para além de ter uma atmosfera hipnótica absolutamente imersiva e absolutamente única dentro da FC, conta com um elenco excelente e são as interpretações que fazem o filme.
Viola Davis, e um Ulrich Tukur ( que desconhecia ) com bons personagens secundários quanto baste por exemplo.
Agora o destaque tem de ir para o jovem Jeremy Davies que compõe um personagem esquizofrénico do melhor. De cada vez que ele está em écran rouba o filme a toda a gente.

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Clooney funciona perfeitamente como Kelvin e até poderia ser o mesmo do livro exceptuando na idade talvez e em termos de química romântica faz o par perfeito com a actriz Natascha McElhone que conhecemos de thrillers como por exemplo “RONIN” com Jean Reno e Robert de Niro.
Os dois são realmente o coração do filme e logo esquecemos os actores por detrás dos personagens á medida que ficamos a conhecer a sua história de amor presente e passada enquanto o enigma se desenrola.

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Visualmente [“SOLARIS”] para além de ter cenários mesmo atmosféricos e bastante realísticos conta também com alguns dos melhores CGI dos últimos anos. Nem por um instante parece um filme filmado em 2002 no que toca a efeitos digitais. 
Isto porque [“SOLARIS”] foi o primeiro filme a usar render digital com uma resolução de 4K há 14 anos ! Facto único na altura e “tão inútil” que o realizador admite que nem no cinema conseguiriam projectar as imagens com a qualidade que foram criadas.

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A verdade é que as sequências espaciais deste filme são fabulosas e muito muito nítidas, tendo na altura também sido as cenas de FC com os modelos de naves mais detalhados que já se tinham montado num programa 3D até á data, o que dá a [“SOLARIS”] um ar absolutamente moderno e poderia ter sido filmado ontem que não se notava qualquer diferença.
Eu nem acredito que este filme já tem 14 anos !!

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Outro grande responsável pela atmosfera da história é a excelente banda sonora. Algo minimalista e abstracta por vezes é certo, mas cria os ambientes perfeitos para cada sequência.
A música “náutica” central dá aquele universo uma escala épica e muito romântica fazendo-nos sentir realmente parte de uma aventura de exploração espacial totalmente clássica.

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Num filme bastante intimista como este, a musica no entanto não deixa de conter ambientes bastante expansivos até. Se gostaram por exemplo do estilo de música presente no recente e fabuloso “INTERSTELLAR” a banda sonora de [“SOLARIS”] irá agradar-lhes certamente.

Posto isto o que mais há para dizer sem estragar o filme ?…
Muito pouco…

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CLASSIFICAÇÃO

[“SOLARIS”] para mim é um dos melhores filmes de FC de todos os tempos.
É um daqueles que quanto mais vejo mais gosto.
É coisa rara, FC para o púlblico de FC, pensada para o público adulto de FC e muito bem executada sem entrar em concessões que poderia ter bem entrado de modo a agradar mais ás massas que detestam este filme porque simplesmente não o compreendem ou não lhes apetece compreender, porque dá trabalho e não tem explosões.
É uma excelente love-story metafísica e tem pilhas de atmosfera quanto baste, além de visualmente ser realmente do outro mundo.

Cinco Planetas Saturno

    

Só não leva um Gold Award, pois os tiques de cinema-de-autor armado em “inteligente” que Soderbergh insiste em espalhar por toda a montagem por vezes torna o filme quase, quase pretencioso como o raio. E isso irrita.

A favor: pilhas de atmosfera, excelente história de amor extraterrestre, o conceito de Solaris enquanto entidade alienígena, o set design é fantástico, os efeitos especiais idem com destaque para as lindíssimas animações CGI em tom totalmente natural, excelentes interpretações de todo o elenco, é ficção-científica para o público de FC e quase parece mentira isto existir.



Contra: certos tiques de cinema-de-autor eram dispensáveis embora lhe dê uma atmosfera diferente é certo… como adaptação do livro tem muitas falhas mas por mim também não importa muito
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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER

COMPRAR DVD – REGIÃO 2 – EDIÇÃO UK
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IMDb
http://www.imdb.com/title/tt0307479

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