– A PORTA DO ESPAÇO / O IMPÉRIO DAS ESTRELAS – A.Carichas – 1984 – Banda Desenhada Vintage

Entre todos os autores de BD Portugueses até hoje não deve ter havido nenhum que me tivesse influenciado mais do que António Carichas, me influenciou quando eu era pequeno e me fez ficar com vontade de também criar as minhas histórias. É até hoje o meu autor de BD favorito neste país-à-beira-mar-naufragado.
Mesmo apesar de A.Carichas ter sido talvez um dos maiores plagiadores de todos os tempos nesta área artística, tendo editando histórias de Bd que hoje simplesmente não passariam de todo neste Portugal politicamente correcto, especialmente por questões de copyright.

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O trabalho de A.CARICHAS tinha sempre duas caracteristicas principais:

– A primeira era que todos os seus personagens estavam desenhados nas poses mais estranhas. Em particular as personagens femininas que eram óbviamente decalcadas de modelos a posar para a Playboy ou para alguma revista sexy semelhante da época onde o autor as iria copiar e por isso não interessava o que as bonecas estivessem a fazer numa história, estas estariam sempre a fazê-lo em poses sensuais acompanhando os seus corpos de Coelhinhas da Playboy ou modelos da Penthouse.

– A segunda era que Carichas limitado pela sua própria técnica, reproduzia descaradamente não só o visual de tudo aquilo que era mais popular na Banda Desenhada dos 70s e inicios de 80s nomeadamente na BD Franco-Belga como principalmente copiava os próprios desenhos originais ( certamente a papel vegetal ) e “colava-os” dentro das suas histórias.
Isto acontecia em particular com cenários e/ou naves espaciais roubadas de tudo o que era Banda Desenhada (ou filme)  conhecidos na altura e inseridos num verdadeiro trabalho de copy-paste artístico e manual ( não haviam cá computadores ).
Carichas não só copiava os visuais de veículos ou cenários como também reproduzia quase traço por traço tudo o que estava no enquadramento da vinheta original desenhada por quem realmente tinha inventado o desenho inicialmente para outro tipo de história. Por exemplo a determinado ponto podemos encontrar numa das suas Bds uma vinheta totalmente gamada do trabalho de Al Williamson para a adaptação comics de The Empire Strikes Back.
Como tal era inevitável que os seus trabalhos de banda desenhada estivessem cheios de Mileniuns Falcons, Galacticas e tudo o mais que vocês de gerações mais novas nem imaginam. Na sua maior parte imagens copiadas descaradamente de muitas das bandas desenhadas Francesas, Italianas ou Belgas da altura em revistas como Metal Hurlant, ou então de coisas sacadas da revista Canadiana Heavy Metal.

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Na banda desenhada que lhes mostro a seguir, “A PORTA DO ESPAÇO“contam-se pelos dedos os desenhos que foram realmente criados de raíz pelo autor e contém vinhetas roubadas essencialmente de uma famosa BD dos 70s que influenciou meio mundo e que se chamava “BELA MAS PERIGOSA” sendo o seu verdadeiro autor Angus Mckie. E quando eu digo roubadas, não quero dizer, “inspiradas em…”; é – roubadas mesmo.
Para lá do trabalho de McKie , António Carichas gamou também o que resta de uma “Galactica”, um disco voador de outra Bd chamada “Ian Kaledine” retirada de uma aventura passada na Sibéria e aqui transposta em modo copy-paste manual para a história “A PORTA DO ESPAÇO“; história esta que já é de uma das suas últimas fases no início dos an0s 80 antes de ter desaparecido para sempre quando a revista Mundo de Aventuras acabou.

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Nesta altura Carichas já copiava mais fielmente o que roubava de outros lados e nota-se que tentava “disfarçar (?)” com traços seus muita da coisa que retirava do trabalho de outros autores para inserir nas suas histórias embora sem grande sucesso pois técnicamente Carichas nunca dominou de forma profissional qualquer competência que lhe permitisse desenhar a partir da sua própria imaginação; pelo menos que eu tenha encontrado em alguma das suas BDs até este ter simplesmente desaparecido do mundo editorial.

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A segunda banda desenhada, abaixo “O IMPÉRIO DAS ESTRELAS“,  foi a primeira história que eu vi do autor no final dos anos 70. Foi publicada num Mundo de Aventuras se não me engano de 1978/79 e para mim com 9 anos foi uma das histórias que mais me marcou pela ideia e atmosfera. Isto apesar de eu próprio na altura ter imediatamente reconhecido por ali a nave do “BATALHA NO ESPAÇO” e já mesmo nessa idade ter achado aquilo muito estranho.
Mas Carichas em “O IMPÉRIO DAS ESTRELAS” não se limitou a roubar bocados de Battlestar Galactica. Para esta história foi copiar também os fatos espaciais de 2001 ODISSEIA NO ESPAÇO, o visual do heroi AXLE MUSHINE criado pelo autor espanhol Ribera e o biquini de VAMPIRELA no que toca aos personagens femininos que já nesta altura posavam “para a vinheta” em constante modo sensual não importa o que estivessem a fazer.

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Quando A.Carichas tentava não copiar directamente qualquer coisa era imediatamente óbvio pois o artista cometia uma quantidade enorme de erros amadores, tanto de perspectiva, escala, anatomia ou na própria iluminação de uma vinheta mas nem por isso o seu trabalho se resentia disso. Hoje acho até que todo o amadorismo à sua volta o tornou absolutamente único e muito cativante.
Até porque Carichas sempre foi um óptimo contador de histórias com muita imaginação e alguns conceitos bastante bons que marcaram o meu próprio imaginario e ainda hoje fazem parte do meu próprio trabalho de ilustração.
Isto porque A.Carichas era sublime na forma como compunha as suas bandas desenhadas em total regime de cópia, plágio ou lá o que lhe quiserem chamar.
Penso até que Carichas transformou o plágio numa forma de arte e num instrumento criativo ou imaginativo como eu nunca vi até hoje dentro da banda desenhada.

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Porque acima de tudo penso que o autor tinha um genuíno amor pela BD e essa dedicação passava por completo para dentro das suas pranchas e histórias o que quanto a mim sempre desculpou tudo o resto.
Uma coisa é roubar para fazer um produto menor, outra é roubar e conseguir construir um universo bastante imaginativo e original como Carichas sempre o fez.
Para mim continua a ser o meu autor de BD Português favorito de todos os tempos.
Por exemplo a sua saga “TONCARI” que postarei em breve continua a ser na minha opinião uma das aventuras mais atmosféricas ao redor do conceito de Antigos Astronautas num molde iniciado pela Galactica mas levado muito mais longe em termos imaginativos por Carichas.
TONCARI esse que a julgar pela capa acima, penso que da última vez que foi publicado no Mundo de Aventuras, já se estaria a preparar para ser outro plágio temático; desta vez ao conceito de Mézieres com o “VALERIAN“, só que este pilotaria o Millenium Falcon e ninguém iria certamente notar isso.
Lembrem-se que estavamos numa época em que nem sequer existiam VHS, não existia cinema-em-casa; ninguém podia rever qualquer filme a não ser se este voltasse a passar numa sala de cinema e não existia Internet.
Portugal estava totalmente fechado e portanto fotografias do filmes populares raramente chegavam cá para que os mais atentos fizessem comparações e sendo assim este tipo de “homenagem visual” passaria sempre bastante despercebido, talvez como sensação de Dejá Vu para alguns, apenas.

A.CARICHAS hoje pode ter sido esquecido por muita gente, mas para mim continuará a ser dos meus autores de BD Portugueses favoritos de todos os tempos; o que não deixa de ser estranho.
Na verdade continua a ser quase inacreditável contar em cada uma das suas histórias tudo aquilo que ele roubava descaradamente a outros autores. Coisa que só num Portugal do final dos anos 70 inicios de 80 poderia escapar à malta dos direitos de autor e ser publicado livremente por uma editora como a Agencia Portuguesa de Revistas.
Se calhar por isso é que actualmente não existe nada do trabalho de Carichas re-editado.
O que é pena.

Espero que gostem do que está postado por aqui.
Mais em breve.

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Se gostaram desta BD poderão gostar destes filmes:

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“Солярис ;(1968)” (“SOLARIS / Солярис”) Lidiya Ishimbaeva / Boris Nirenburg (1968) RUSSIA

Para meu espanto descobri há dias que um dos meus livros de ficção-científica favoritos, “SOLARIS” de Stanislaw Lem, afinal não teve apenas duas adaptações para filme mas sim três.
Existe um “SOLARIS” de 1968 !!

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Quando eu procurava material visual para a minha outra review a propósito de [“Solaris / Солярис”] realizado em 1972 por Andrei Tarkovsky eis que de repente no Youtube descubro não só a existência desta adaptação anterior como ainda por cima o filme está todo no site legendado em inglês !
[“Солярис”] antes de ter sido um dos filmes mais reverenciados por tanta gente a quando da sua adaptação ao cinema por Tarkovsky começou por ser um filme para televisão e segundo o que me parece pela cópia existente no Youtube terá sido uma espécie de mini-série divida em três episódios.

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Foi produzida para um canal de TV Russo em 1968 e curiosamente tendo praticamente a mesma duração da versão seguinte em 1972 ( quase três horas ) e sendo essencialmente pouco mais do que uma peça de teatro filmada ( em directo (?) ), acaba no entanto por ser um filme muito menos secante ( dentro de um certo contexto ) do que a reverenciada adaptação de Tarkovsky precisou de ser por motivos que detalhei já bem na minha outra review para [“Solaris / Солярис” ;(1972)].

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Isto porque essencialmente [“Солярис ;(1968)”] é no seu formato o típico produto televisivo dos primórdios da televisão e embora tendo sido já produzido quase em 1970, ainda se parece por completo com aquele tipo de séries de ficção-científica “primitivas” norte americanas do meio dos anos 50 que eram na sua maioria, ensaiadas e filmadas em directo como se fossem uma peça de teatro onde não poderia haver falhas nem hipótese para repetição de takes.

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Se conhecem coisas como “Tom Corbet Space Cadet” sabem do que estou a falar.
[“Солярис ;(1968)”] parece por isso um produto bem mais antigo do que na realidade é. Especialmente quando nos lembramos do que Kubrik estava a fazer no mesmo ano com “2001”; embora nada se possa comparar até porque esta primeira adaptação do romance de Stanislaw Lem para o pequeno écran é claramente um título praticamente sem orçamento para o que quer que seja.
Muito menos para adaptar a quantidade de coisas que estão no livro e que ninguém até hoje mostrou seja em que adaptação for.

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Daí todo o seu ambiente teatral também.
[“Солярис ;(1968)”] não tem efeitos especiais de espécie alguma, não tem naves, não tem cenas no espaço, nem sequer nos mostra o Oceano inteligente do planeta Solaris ao contrário da versão posterior de Tarkovsky que mal ou bem ainda introduziu um design espacial ou dois que até ficaram famosos e se tornaram ícones da ficção científica.
[“Солярис ;(1968)”] não tem nada disso, mas é precisamente por se parecer com um teatro filmado que acaba por resultar bastante bem.
Se vocês meterem na cabeça que o que vão ver é uma história representada por quatro actores e pouco mais irão gostar de acompanhar [“Солярис ;(1968)”] pois é realmente muito agradável de seguir; ( e noite dentro quando visto na escuridão tem uma atmosfera muito cativante ).

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Especialmente para quem for fã do livro ou conhecer bem os fimes posteriores, tanto a adaptação de Tarkovsky em 1972 como o remake de Soderbergh em 2001.
Para o público em geral também poderá ser uma proposta curiosa, especialmente para quem gostar muito de teatro e de ver textos bem representados.

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Visualmente [“Солярис ;(1968)”] apesar de muito limitado a uns três ou quatro cenários simples é como já referi muito atmosférico também.
O visual da estação Solaris tem pilhas de ambiente. Apesar do seu design muito singelo, resumido a um corredor juntamente com mais um par de salas  [“Солярис ;(1968)”] nesta versão “teatral” parece estar perfeitamente adequada ao que o texto pede.
O facto de ser –um filme- a preto e branco com uma boa fotografia e uma estética claramente inspirada no cinema Expressionista Alemão  clássico, onde as imagens em estilo “noir” cheias de contrastes claro-escuro abundam, faz com que esta história mesmo dependendo tanto dos diálogos e dos actores acabe por funcionar bem, até mesmo durante as suas mais de duas horas de duração.

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E por falar em história, o pobre do Stanislaw Lem deve ter-se arrependido amargamente de ter colocado nesta novela de ficção científica uma personagem feminina com uma ligação emocional ao protagonista.
Isto porque também aqui neste original [“Солярис ;(1968)”] o que os argumentistas desenvolveram foi essencialmente toda a parte da história de amor que serviu depois de base a Tarkovsky e foi mantida no remake de 2001 também como centro de tudo.

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[“Солярис ;(1968)”] é quase um rascunho para os outros dois filmes seguintes no que toca à vertente romântica da coisa, o que mais uma vez dá uma ideia completamente errada do livro.
Isto porque a novela original conta realmente uma história de ficção científica clássica bem mais detalhada e muito mais próxima de um “THE FORBIDDEN PLANET” do que propriamente de uma espécie de Romeu e Julieta espacial que serviu um bocado de pano de fundo para todas as versões filmadas desde que [“Солярис ;(1968)”] apareceu na TV Russa.

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CLASSIFICAÇÃO

Como curiosidade [“ ;(1968)”] é realmente um achado e não deixa de ser mais outro bom exemplo do tipo de ficção-científica adulta que já existia na Russia enquanto os americanos ainda andavam a ser invadidos por monstros de borracha, “comunistas” espaciais e discos voadores em Hollywood.

Três Planetas Saturno


  

Resulta bem como teatro filmado, surpreendentemente não é um produto aborrecido ( pelo menos para quem for fã do romance original ), não é deprimente como o raio ao contrário da versão seguinte e tem muita atmosfera mesmo pelo meio das suas limitações técnicas.
Se calhar dentro de um certo contexto até mereceria mesmo quatro Planetas Saturno e não apenas três.

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Como adaptação do livro é mais outra que jogou fora praticamente tudo o que lá está e centrou-se apenas na história da relação entre Kris Kelvin e a esposa falecida que regressa para junto dele quando o Oceano inteligente que habita Solaris tenta comunicar com os habitantes da estação de pesquisa terrestre que flutua na sua superfície materializando as memórias de cada pessoa.

A favor: é uma versão muito curiosa e por isso hipnótica que nenhum fã do livro deve deixar de ver, tem um visual “noir” fantástico por vezes embora muito limitado, como teatro filmado resulta bem, os actores são carismáticos quanto baste e a história mantém-se constantemente fluída sem pontos mortos.

Contra: se calhar para quem não for fã do livro ou dos filmes seguintes isto não terá grande interesse, quase três horas ainda é um bocadinho demais para o conteúdo que tem.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER – (com uma interessante comparação entre todas as versões)

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VER FILME COMPLETO NO YOUTUBE

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IMDb
http://www.imdb.com/title/tt1808482

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“CHILDHOOD´S END” (CHILDHOOD´S END) Nick Hurran (2015) EUA

De todos os romances principais de Arthur C.ClarkeCHILDHOOD´S END” deve ter sido o único que eu nunca tinha lido até há bem pouco tempo e por causa disso o conteúdo de [“CHILDHOOD´S END”]  a mini-série de TV estreada em 2016 e produzida pelo Sci-Fi Channel foi para mim uma verdadeira surpresa.

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Nem sei como durante este tempo todo, com tanta comunicação por todo o lado, *spoilers* aos quilos pela internet e mesmo assim, apesar de eu devorar romances de ficção científica desde os 11 anos,  “Childhood´s End” o livro nunca se cruzou no meu caminho e portanto até há bem poucos meses eu nem sequer sabia qual o tema da novela que conhecia apenas de fama, mas cujo o enigmático título nunca me tinha despertado curiosidade.
Até porque eu sempre evitei histórias de FC passadas na Terra e pensava que esta seria apenas mais uma nesse estilo ( cheia de intriga politica ) quando o que eu procurava seriam normalmente histórias de exploração espacial. Mea culpa.

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Se eu soubesse que “CHILDHOOD´s END” tinha este tipo de história, há décadas que este romance teria estado no topo do meu top dos livros de FC a ler obrigatoriamente mas no entanto consegui manter-me totalmente alheio ao seu conteúdo durante todos estes anos. O que foi óptimo pois agora [“CHILDHOOD´S END”] caiu-me em cima como um asteróide e ainda estou atordoado.

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O meu romance de ficção-científica favorito de todos os tempos é ou são, vários livros escritos por Arthur C.Clarke ( a que se juntou Gentry Lee ); com a saga “RAMA” que começou nos anos 60 com “RENDEZ-VOUZ COM RAMA” e que quase três décadas depois teve direito não só a uma continuação mas a três enormes volumes em que Clarke levou todo o conceito cosmológico inicial a limites que desafiaram a minha imaginação.
Clarke criou definitivamente  aquela que continua para mim a ser sem qualquer sombra de dúvida, não só a melhor saga de exploração espacial jamais escrita, como principalmente a melhor história de ficção-científica que alguma vez me passou pela frente.

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CHILDHOODS END” muito provavelmente a partir desta mini-série ocupa agora o terceiro lugar, tendo destronado o universo “DUNE” dessa posição que passa agora para quarto na minha lista. 
O segundo lugar é ocupado por um romance desconhecido de muita gente “THE LAST AND FIRST MEN” de 1930 escrito por OLAF STAPLETON há quase noventa anos. Romance esse que segundo o próprio Clarke foi determinante na sua imaginação quando jovem e do qual podemos encontrar enormes influências no seu trabalho, não só em “Rama” como principalmente na própria história de “CHILDHOOD´S END”,  muito em particular no seu excelente final totalmente cosmológico a fazer lembrar o melhor de Olaf Stapleton a todos os níveis.

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A mini-série fez-me finalmente interessar por procurar o romance cinco décadas depois deste ter sido escrito e só me pergunto porque raio esperei tanto tempo para ir ao seu encontro, pois afinal não é uma secante metáfora política contrariamente ao que eu esperava e conceptualmente é tão bom ou tão épico quanto foi toda a história de Rendez Vouz Com Rama embora numa estrutura narrativa bem menor mas nem por isso menos épica.

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Pensei se deveria recomendar [“CHILDHOOD´S END”] aqui no blog ou não porque este título para quem não faz ideia do que contêm, nunca leu o livro ou não conhece o tema será uma história cujo o impacto depende por completo da total ausência de Spoilers.
O problema é que para que eu pudesse realmente postar aqui a review que eu gostaria mesmo de estar agora a escrever, eu teria que não só lhes revelar imenso sobre o que se passa nesta mini-série como principalmente mostrar uma enorme quantidade de imagens que lhes estragaria todas as surpresas e diminuiria por completo o seu impacto…
E meus amigos, se não fazem ideia dos twists e temas que estão nesta história afastem-se da internet antes de verem pelo menos a mini-série.

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Principalmente cuidado se procurarem por fotografias, ( não o façam ) pois irão deparar-se logo com enormes spoilers que lhes irão retirar metade do prazer de descobrir a aventura passo a passo.
Todas as fotos que encontram agora aqui nesta review foram cuidadosamente selecionadas por mim para não lhes estragar qualquer surpresa portanto não queiram ver mais do que o que lhes mostro agora. Trust me.

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Agora percebo porque [“CHILDHOOD´S END”] enquanto romance, será um dos mais reverenciados em toda a obra de Arthur Clarke.
Não deixa de ser notável que esta história tenha sido publicada nos anos 50 pois essencialmente contêm praticamente tudo o que a gente depois já viu um sem número de vezes na TV ou no cinema; tanto em episódios do Twilight Zone como em filmes como Independence Day e que nunca suspeitamos que tivesse vindo de um livro escrito há cinquenta anos atrás.
Todos aqueles clichés que conhecemos hoje dos filmes de invasão em que enormes discos voadores estacionam por cima das nossas cidades por exemplo surgiram pela primeira vez neste romance. Isto e muito mais que não posso agora também aqui revelar.

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O que não entendo é a reacção negativa de muita gente que parece ter detestado a adaptação televisiva que o Sci-Fi Channel fez agora do romance de Clarke.
Pessoalmente penso que fizeram um trabalho extraordinário em adaptar a essência e os conceitos do romance.
É verdade, é muito diferente da novela em muitos pontos , mas as ideias e até muitas das coisas que acontecem no livro estão lá por isso não percebo esta mania dos puristas da literatura em acharem que um filme tem que conseguir adaptar parágrafo a parágrafo uma novela para ser genuíno.

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[“CHILDHOOD´S END”] a série está tão bem adaptado quanto “BLADE RUNNER” adaptou o romance “DO ANDROIDS DREAM OF ELECTRIC SHEEP”, está tão bem adaptado quanto “JOHN CARTER” adaptou “JOHN CARTER OF MARS”.
Ou seja, não adaptou o romance passo a passo; muita coisa nem existe no livro, a atmosfera é diferente, os personagens idem mas a sua essência está lá da mesma forma que a escrita de Philip K.Dick está presente em cada fotograma de “BLADE RUNNER” ou a narrativa e imaginação de Edgar Rice Burroughs está perfeitamente representada em “JOHN CARTER”.
Portanto, na minha opinião não há qualquer motivo para dizer que [“CHILDHOOD´S END”] é uma má adaptação do trabalho de Clarke, especialmente quando acontece precisamente o contrário.

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[“CHILDHOOD´S END”] modernizou e bem um livro escrito nos anos 50.
Se tivesse sido adaptado como está escrito a história não funcionaria no contexto moderno e perderia todo o impacto.
Seria absolutamente idiota fazer uma adaptação fiel do livro pois tornaria [“CHILDHOOD´S END”]  num filme de época, completamente datado em tudo o que a história necessita para funcionar em termos de tecnologia , sociedade, política ou religião.
Assim como está, está perfeito.
Ignorem os puristas da literatura.
[“CHILDHOOD´S END”] é brilhante e mantém-se um Arthur Clarke puro. Nem falta uma referência visual a “2001 ODISSEIA NO ESPAÇO” em todas as cenas que envolvem o quarto de hotel, claramente inspirado adivinhem em que cena…

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Os novos personagens são excelentes, tem uma carga dramática bastante inesperada na forma como funciona realmente bem, os efeitos especiais são fabulosos e ao nível de qualquer blockbuster e a história mantêm-nos agarrados do início ao fim.
Especialmente a partir da primeira hora e meia quando acontece um dos melhores e mais famosos twists que curiosamente eu até adivinhei apesar de não conhecer nada da história mas nem por isso deixou de me divertir bastante pelo seu impacto visual até.

childhoods-end_69 Childhood's End - Season 1

O elenco é muito bom, com destaque para o clássico vilão de tantos filmes dos anos 80, Charles Dance que aqui compõe o carísmático comandante extra-terrestre que supervisiona todo o planeta Terra interagindo com os habitantes de uma forma que inspirou um sem número de variações ao longo dos anos mas que teve aqui o seu princípio enquanto conceito original presente no livro.
Charles Dance está absolutamente fantástico e rouba todas as cenas em que entra pelo forma como consegue realmente transmitir um sem número de emoções mesmo por debaixo de tanta camada de prostéticos que o transformam num dos melhores alienígenas de todos os tempos dentro da ficção científica levada ao ecran.

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[“CHILDHOOD´S END”] conta a história do dia em que uma raça alienígena entra em contacto com a humanidade mas em vez de entrar a matar, guia-nos para um futuro idílico sem ódio, sem guerras sem preocupações. Com um propósito…
E não é o que imaginam.
Se não conhecem a história irão surpreender-se com o conceito e irão adorar os vinte minutos finais desta história que foi dividida em três episódios que totalizam 4 horas e meia de narrativa contendo momentos visuais fabulosos do principio ao fim.
As cenas no planeta alienígena embora breves são inesquecíveis e só é pena não haver mais um bocadinho de desenvolvimento nesses momentos, pois [“CHILDHOOD´S END”] é um daqueles filmes em que ficamos realmente a pedir mais.

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Se vocês são fãs de “Rendez Vouz With Rama” escrito por Clarke e nunca leram o romance que deu origem a [“CHILDHOOD´S END”] a mini-série, então vão adorar particularmente o tom e o espírito de exploração que está no segmento final desta história. [“CHILDHOOD´S END”] a mini-série consegue realmente levar-nos por uma viagem espacial e só é pena a viagem ser curta.

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Isto porque a ter alguma coisa menos boa, [“CHILDHOOD´S END”] falha por não evitar algumas armadilhas narrativas das produções para TV. Principalmente no segundo e no terceiro episódio há por ali um par de cenas a mais que poderiam e deveriam ter sido substituídas por mais descoberta e exploração e no entanto a série esgota esses minutos em segmentos dramáticos demasiado longos que não fazem mais do que repetir o tom que já tinha sido estabelecido anteriormente. Isto quando o que o espectador quer mesmo ver é a continuidade das sequências de exploração.
Mas não é grave.
Se calhar nem vão notar, até porque todas as partes emocionais desta série estão mesmo muito bem construídas e recomenda-se uma boa pilha de lenços de papel aos mais sensíveis.

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E pronto, é melhor calar-me pois [“CHILDHOOD´S END”] é mesmo para ser descoberto por cada um de vocês e acreditem-me que vale a pena.

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CLASSIFICAÇÃO

Contrariamente ao que certos puristas pela net parecem apregoar, [“CHILDHOOD´S END”] é uma excelente adaptação do conceito descrito no romance original de Arthur C.Clarke.
Está lá tudo. Ignorem as críticas negativas pois são totalmente infundadas. [“CHILDHOOD´S END”] a mini-série é a modernização perfeita de “CHILDHOODS END” o livro dos anos 50.
Excelente design, grandes efeitos especiais, óptimo elenco e um tema simplesmente perfeito.

Cinco Planetas Saturno e um Gold Award


     

Pode ser uma mini-série de TV mas desde “CHILDREN OF DUNE” que não havia algo assim que nos fizesse esquecer por completo a origem televisiva do projecto.
Totalmente cinemático em muitos momentos o que acima de tudo o torna num grande filme de ficção-científica.

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A favor: a história, os personagens, os actores com Charles Dance em particular que está fabuloso, os efeitos especiais, as reviravoltas, o sentido de maravilhoso, o ambiente apocalíptico nas cenas em que este é preciso, o design do planeta alienígena, as naves espaciais são fantásticas, a banda sonora, o sentido cinemático do projecto.

Contra: algumas cenas dramáticas repetem-se um bocado e alongam por demais segmentos que deveriam ter sido mais curtos, as cenas na cidade livre por vezes parecem algo deslocadas e contribuem um pouco para que a série perca um bocadinho de fôlego a meio.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER
Sem spoilers – Podem ver à vontade.

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COMPRAR BLURAY – REGIÃO B (2) – EDIÇÃO UK

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IMDb

ATENÇÃO: Não visitem a página do IMDb se ainda não viram a série ou não sabem nada sobre esta história, porque o IMDb na página desta, contém logo montes de imagens que são *SPOILERS*.
http://www.imdb.com/title/tt4146128/combined

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