“ESTRADA DE FOGO” (“STREETS OF FIRE”) Walter Hill (1984) EUA

E por falar em filmes da minha vida…
[“STREETS OF FIRE”] é um daqueles raros filmes dos anos 80 que são intemporais principalmente porque tirando um pormenor ou dois e removendo apenas um par de canções mais pop da banda-sonora, este filme poderia ter sido filmado no ano passado e não se notaria qualquer diferença.

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Para mim [“STREETS OF FIRE”] é simplesmente o melhor filme romântico em ambiente Rock & Roll alguma vez feito e como tal perfeito para ser recomendado também agora precisamente neste dia de S.Valentim de 2017 a jeito de comemoração no blog.

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[“STREETS OF FIRE”] já conta com mais de 30 anos em cima mas não se nota nada e há por aqui razões sobre o porquê que nunca mais acabam por isso vamos lá tentar abordar algumas.  Se calhar surpreendendo até quem já conhece o filme.
Tenham em atenção que esta review irá conter *spoilers* importantes na história; mas sinceramente meus amigos, [“STREETS OF FIRE”] é aquele tipo de filme que pode ser contado de uma ponta à outra que isso não impedirá de todo a sua apreciação seja por quem for mal o espectador seja agarrado pela sua canção emblemática nos primeiros dez minutos.
Em [“STREETS OF FIRE”] a última coisa que interessa é a história, por isso não se preocupem com o que passarei a referir de seguida pois não lhe irá estragar a experiência mesmo se nunca viram o filme.

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Por vezes esqueço-me que quem lê este blog não é apenas pessoal da minha idade (47s +-); pessoal que conhece o filme, pessoal que teve o oportunidade de o ver no cinema quando estreou; mas também muita gente nova que nem sequer era nascida em 1994, quanto mais adolescente em 1984.
Os mais novos não farão pois a miníma ideia da importância deste filme na própria história da cinema e aposto que nem os mais velhos, pois [“STREETS OF FIRE”] sempre foi um daqueles do qual muita gente conhece a música mais do que alguma vez terá tido oportunidade de ver; porque até há bem pouco tempo foi um daqueles títulos raros.
Há por aí até, quem nem faça sequer ideia de que a música “NOWHERE FAST” que continua ainda hoje a passar diariamente em todas as rádios pertence a um filme dos anos 80 !

ANOTHER TIME, ANOTHER PLACE

Até há alguns anos atrás estranhamente para surpresa de muita gente [“STREETS OF FIRE”] aparecia também entre os melhores filmes de ficção científica alguma vez feitos em várias listas de cinema do género.

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Pode parecer estranho mas tem uma explicação que pode ser comprovada no fabuloso documentário contemporâneo pertencente à edição bluray UK actualmente disponível apenas na amazon.Uk; região B .
Não que [“STREETS OF FIRE”] meta naves espaciais, alienígenas ou qualquer coisa assim mas foi um dos primeiros títulos modernos a mostrar uma espécie de História alternativa.
Segundo o próprio realizador a ideia foi situar esta aventura numa realidade paralela, um 1984 onde várias épocas anteriores ainda se cruzariam porque nunca deixaram de existir; como se três ou quatro eras distintas tivessem ficado congeladas enquanto o tempo avançava e as décadas se sucediam dando origem a um 1984 alternativo.

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[“STREETS OF FIRE”] é assim passado num universo de Rock & Roll à primeira vista saído dos anos 50 com tudo o que estes têm de icónico mas ao mesmo tempo está carregado de referências também sobre os anos 30 e 40, seja nas roupas, objectos ou arquitectura. Inclusivamente houve dois designers de produção que trabalharam em paralelo; um recriou os anos 50 como se estes continuassem a existir nos anos 80 e o outro tratou de tudo o que eram pormenores secundários que remontassem também e ao mesmo tempo aos anos 30 e 40.

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Daí [“STREETS OF FIRE”] ter tido logo à partida um ambiente único que nunca se tinha visto antes e que inclusivamente baralhou muita gente e muito crítico na época.
Isto porque o facto de ser essencialmente uma aventura passada numa realidade em que a Terra partiu de uma História alternativa nunca foi abertamente mencionado, pois Walter Hill achou que isso não importava para o argumento central e julgava ele que o público iria perceber o que se passava pelas referências misturadas. Enganou-se.
O público não poderia ter ficado mais baralhado, o que só demonstra que audiências braindead não são uma invenção moderna, infelizmente…

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Curiosamente [“STREETS OF FIRE”] estreou no mesmo ano de “BLADE RUNNER” e ambos tiveram duas coisas em comum. Ambos foram buscar ao passado muitas das suas referências retro-vintage e ambos foram pura e simplesmente abandonados pelos grandes estúdios. Que não percebendo o que tinham em mãos ou a inovação que tanto um filme como o outro representavam, simplesmente descuraram por completo o marketing e a distribuição e os dois filmes foram um fracasso brutal nos EUA.
Curiosamente também, ambos os filmes foram ( e nunca deixaram de ser ) um sucesso na Europa e na Ásia; sendo [“STREETS OF FIRE”] no Japão ainda hoje o filme de culto em que “BLADE RUNNER” se transformou também aos poucos na Europa.

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Como é referido no documentário, curiosamente o filme pegou no Japão essencialmente porque aparentemente sem que fosse essa a intenção, o que Walter Hill filmou afinal, mais do que uma história de Rock & Roll foi uma história sobre um Samurai ; um Ronin e o filme por lá continua tão popular que Michael Paré, o protagonista é ainda hoje uma verdadeira mega-estrela no Japão só por causa de [“STREETS OF FIRE”].

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Outra coisa que “BLADE RUNNER” e [“STREETS OF FIRE”] têm em comum, para além das bandas-sonoras imediatamente reconhecíveis é também o facto de terem ganho uma segunda vida com a invenção do “VHS” e dos clubes de vídeo.
Tanto um como o outro foram resgatados pelo público do cinema em casa quando este era ainda uma novidade e devem a continuídade da sua reputação não só ao mercado de aluguer como também ao de venda-directa ( outra coisa extraordinária inventada na altura ), pois ambos os filmes tiveram excelentes resultados comerciais na sua versão video-cassete; mesmo lançados mutilados no horroroso formato video do 4:3 Pan & Scan.

NOWHERE FAST

Muitos de vocês se calhar ficaram um bocado baralhados quando eu atrás referi que [“STREETS OF FIRE”] é um daqueles filmes realmente importantes na história do Cinema.
Provavelmente nunca ouviram falar dele da mesma forma que ouvem falar de outros clássicos oficialmente conceituados, mas a explicação é simples; [“STREETS OF FIRE”] é ainda um “Clássico” da História do Cinema muito recente.
E porquê ?
Porque estava tão à frente do seu tempo na própria linguagem visual que utilizou que só há muito pouco tempo, talvez na última década e meia é que a importância da sua contribuição para o audiovisual moderno foi redescoberta e oficialmente notada tendo começado a ser referido em tudo o que eram artigos sobre a 7ªArte.

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A razão da sua importância para a história do cinema continuar a passar um bocado ao lado da crítica elitista iluminada hoje em dia, deve-se principalmente ao facto de que [“STREETS OF FIRE”] no cinema, inventou a televisão moderna !

Melhor ainda, [“STREETS OF FIRE”] inventou o teledisco actual.
Inventou o videoclip contemporâneo.

A história da música na televisão pode dividir-se entre antes e depois deste filme.

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Estavamos em 1984, a MTV tinha surgido há poucos anos, mas não existiam videoclips dignos desse nome até [“STREETS OF FIRE”] ter inventado tudo aquilo que hoje em dia tomamos por garantido na linguagem visual que está por todo o lado.
Seja nos próprios videoclips, seja na própria montagem de séries televisivas que adoptaram por completo a linguagem que hoje se classifica como sendo “MTV” mas que foi na realidade inventada por Walter Hill sem ter tido qualquer intenção de o fazer 30 anos atrás.

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Comparem qualquer sequência músical de [“STREETS OF FIRE”]  com um “videoclip” anterior a 1984. Comparem NOWHERE FAST ( no filme ) a “VIDEO KILLED THE RADIO STAR”, ou a coisas como “ILLUSION” por exemplo que serviam na altura de conteúdo video para promover música na MTV.
Sendo [“STREETS OF FIRE”] um filme sobre uma cantora Rock, passado num universo Rock & Roll e com uma história totalmente assente numa heroína que é raptada por um gang de motards a meio de um concerto, no entanto Walter Hill a meio das filmagens viu-se com um grave problema.
Não tinha canções completas para filmar todas as sequências que deveriam ser à partida a alma do filme logo desde os seus primeiros segundos !

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Inicialmente a ideia seria a de incluir um monte de clássicos dos anos 50 na banda sonora, mas para além dos problemas com direitos de autor e falta de verba para comprar música, Walter Hill também pretendia que esta fosse completamente inédita já que a história se passava numa época alternativa.
Para tal um par de compositores e produtores ligados ao mundo do Rock foram contratados para dar uma distinta identidade músical ao filme. Plenamente conseguida na minha opinião.
O problema é que as coisas atrasaram-se e Hill quando foi obrigado a filmar as cenas musicais por exemplo com Diane Lane em palco, não tinha ainda qualquer versão final da canção inicial ( ou final ) prontas o que colocou graves problemas a Diane Lane que não só não tinha a certeza como deveria interpretar o playback, como obrigou o realizador a ter que encontrar no momento uma forma de filmar todas essas cenas sem ter música.
Uma forma que depois desse para montar o filme com quaisquer das músicas que no final acabassem por ser inseridas, fossem elas quais fossem.

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Sim.
É incrível, mas todas as cenas com a fabulosa prestação em palco de Diane Lane foram gravadas durante semanas a fio sem que ninguém fizesse bem ideia do que estavam a fingir cantar naqueles momentos.
Toda a icónica “interpretação” de Diane Lane ( e da banda )tanto em “NOWHERE FAST” como em “TONIGHT IS WHAT IT MEANS TO BE YOUNG” foram gravadas ao som de praticamente nada que se pudesse utilizar ou servir de guia !
Tanto para actores fingindo serem uma banda em palco como para o desgraçado do Walter Hill que teve de arranjar maneira de filmar todas essas cenas como nunca ninguém tinha tentado filmar um musical antes.

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Normalmente a realização dos musicais assentava sempre já nas canções previamente gravadas e no entanto nem Walter Hill, nem Diane Lane faziam ideia de como soaria as versões completas ou integrais do que estavam a tentar interpretar na altura das gravações.
Resultado, Walter Hill inventou a linguagem moderna televisiva ao mesmo tempo que modernizou os videoclips.


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[“STREETS OF FIRE”] é o filme onde pela primeira vez se utilizou fade-in e fade-out de e para frames em preto no ecran.
Algo tão comum a partir desse momento em milhares de videos que se seguiram e que curiosamente hoje já ninguém repara que uma coisa tão simples assim teve que ser imaginada por alguém pela primeira vez.
Foi por Walter Hill em [“STREETS OF FIRE”] e até há bem pouco tempo ninguém parecia recordar-se disso.

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Outra coisa que Walter Hill pensou na altura quando conseguiu ter as versões finais das canções de Jim Steinman prontas para inserir é que se calhar seria interessante montar cada segmento filmado de forma a bater exactamente com o próprio ritmo e melodia das canções !!
Parece que antes de Hill ter pensado nisto ninguém tinha sequer tentado utilizar tantos cuts e tanta variedade de ângulos para sincronizar com a estrutura de uma canção em video e como ele próprio afirma no documentário a ideia é tão simples e parece tão óbvia hoje, que a seguir a [“STREETS OF FIRE”] toda a gente começou a utilizá-la !

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A partir de [“STREETS OF FIRE”] para o mundo audiovisual dentro da música foi como se todas estas técnicas tivessem sempre existido.
Mas foi [“STREETS OF FIRE”] quem começou tudo.
Curiosamente o facto de ter inventado a linguagem moderna do videoclip depois acabou por jogar contra o filme, pois alguns críticos mais iluminados durante anos a fio menosprezavam este título afirmando que não era mais do que um enorme videoclip como se [“STREETS OF FIRE”] apenas se tivesse limitado a usar um estilo quando na realidade foi Walter Hill que o inventou.
Ainda hoje há por aí na internet gente a desvalorizar esta aventura porque “está mal filmada” por se parecer mais com um videoclip do que com um filme. O que dáva para rir se não fosse tão triste.

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[“STREETS OF FIRE”] é um dos filmes mais importantes da história moderna do cinema porque essencialmente inventou a televisão dos anos 2000 praticamente três décadas antes dela ter passado do estilo “clássico” com séries como “Murder She Wrote / Crime disse Ela” a “CSIs” e tudo o mais que hoje em dia já parece idêntico; sempre com aquele estilo de montagem milimétricamente igual que encontramos por todo o lado.
Cuts rápidos, fade-in, fade-outs e sincronização com banda sonora ao mílimetro.
Quando ligarem a televisão esta noite, podem ter a certeza que [“STREETS OF FIRE”] estará lá sem sequer vocês notarem.

TONIGHT IS WHAT IT MEANS TO BE YOUNG

Mas não só de cuts rápidos e fade-outs para frames pretos por entre sequências com neons vive [“STREETS OF FIRE”].
Acima de tudo , este continua a resultar tão bem ainda hoje em dia por causa dos seus jovens protagonistas.

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Pessoalmente não estava nada à espera que Diane Lane tivesse acabado de completar apenas 18 anos quando trabalhou nisto !
Sempre pensei que ela seria mais velha, pelo menos na casa dos 20 e foi agora uma verdadeira surpresa ver Michael Paré contar no documentário que Diane Lane recebeu as suas notas finais do último ano de Liceu num dia em que eles estavam ambos na caracterização prestes a filmar mais uma sequência.
Ainda agora me custa a acreditar que toda aquela garra nas sequências de palco partiu não só de uma Diane Lane que não sabia cantar, não sabia sobre que canção estaria a fazer playback e ainda por cima mal tinha completado 18 anos quando gravou aquelas cenas. 
Fantástico !

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Michael Paré tinha na altura 23 anos e apenas um filme na carreira ( era CHEF de cozinha curiosamente e poderia ter continuado uma carreira nessa área ).
Paré, actor constantemente atacado sabe-se lá porquê sofreu durante décadas o mesmo tipo de tratamento com  que Keanu Reaves continua a ser presenteado pela critica.
Pessoalmente sempre gostei do tipo, se calhar não ganhará um Oscar mas sinceramente no caso de [“STREETS OF FIRE”] Paré é definitivamente a escolha perfeita para este filme e para este tipo de papel.

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Se [“STREETS OF FIRE”] continua com tanto carisma muito se deve também à sua presença nisto e nem consigo imaginar este filme com outra pessoa como protagonísta.
Já agora, a entrevista com ele no documentário é das mais cativantes que já vi neste tipo de retrospectiva. Paré é uma fonte de informação verdadeiramente inesgotável e um tipo bem disposto e muito descontraído.

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[“STREETS OF FIRE”] conta ainda com um excelente Rick Moranis que aqui tem o melhor registo de todos os personagens. Talvez porque é o único que vai evoluindo e mudando ao longo da história enquanto todos os outros permanecem como sendo personagens de graphic novel unidimensionais; ( como era de resto o objectivo de Hill, pois inicialmente [“STREETS OF FIRE”] pretendia também criar um estilo novo visual de comics e antes de se falar em graphic novels este filme foi também o primeiro a inaugurar um certo tipo de estética que depois vimos transportada para a banda desenhada americana ).
Mas voltando a Rick Moranis, o seu trabalho neste filme é dos melhores, pois vai muito mais para lá do típico nerd cómico que ele costumava compor e é um daqueles personagens de que se fica a gostar imenso no final.

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E não podemos falar de actores sem falar da também jovem na altura Amy Madigan que compõe uma dupla de heróis com Michael Paré perfeitamente clássica pois o seu registo é ao mesmo tempo cómico e muito carismático sendo uma verdadeira mulher de acção ao nível de uma Sigourney Weaver por exemplo. Outro personagem memorável e excelente.

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Willem Dafoe aqui também num dos seus primeiros papeis é o líder motard mais creepy de todos os tempos. Verdadeiramente ameaçador e uma fonte permanente de suspense.
Além disso a sua química com Michael Paré não podia ser melhor e a luta entre os dois ( sem duplos ) no final embora breve é uma verdadeira aula sobre como se utiliza a montagem no cinema para criar ilusão de violência.
Willem Dafoe é outro dos bons motivos para verem este filme se nunca o viram antes.
E já agora prestem atenção a um tal de Bil Paxton em ambiente pré-Aliens num estilo Rockabilly.

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Outra das boas personagens é a da irmã de Michael Paré; a actriz Deborah Van Valkenburgh cara conhecida, nome estranho e que juntamente com Michael Paré, transitou há um par de anos para a sequela art-house de [“STREETS OF FIRE”].
O quê, não sabiam que existe uma sequela para [“STREETS OF FIRE”]  ?!
Mais adiante sobre isto.
..

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Essencialmente [“STREETS OF FIRE”] conta a história da jovem vocalista de uma banda rock, chamada Ellen Aim que é raptada por um gang de motards e do seu ex-namorado, Cody que é contratado pelo agente e namorado actual de Ellen para a ir salvar.
E claro já estão a ver o que se segue.
Ou talvez não…

KISSING IN THE RAIN

[“STREETS OF FIRE”] para além de ser um excelente pulp-fiction de aventuras é acima de tudo um filme intensamente romântico ao melhor estilo clássico.
Outra cena que ficou famosa é precisamente a sequência do beijo à chuva.
É muito simples, dura segundos mas tem um efeito poderoso, tanto pela forma como se sente verdadeira emoção nos personagens como pela maneira como está filmada e montada ao som daquela banda sonora de Ry Cooder, parecendo um verdadeiro poster daqueles vintage com cartazes de filmes ao melhor estilo Gone With the Wind. 


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Esta sequência para mim ainda ganhou mais intensidade quando vi agora  entrevista actual com Michael Paré no bluray em que ele refere a dificuldade que foi para não se ter apaixonado por Diane Lane na altura das filmagens; ao mesmo tempo que não tem problemas em ainda hoje revelar perante a câmera alguma emoção inesperada sobre os seus tempos no set com ela num dos melhores momentos da entrevista em que o seu olhar parece recuar no tempo.
A realidade a imitar a ficção; até pela forma como filme acaba, pois resolução mais clássica para esta história de amor impossível que [“STREETS OF FIRE”] conta não poderia ter havido.

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De tal forma, que foi isso também que acabou com [“STREETS OF FIRE”] nas bilheteiras norte americanas da altura.
Isto porque contrariamente ao que era costume o herói aqui não fica com a miúda no final e algo assim para as audiências gringas era totalmente inadmissível !
O heroi acaba sempre no fim com a miúda, certo ?…
Pois parece que este filme acaba mal…
O quê ?!! Então eles não ficam juntos ?!!
Mas o que é isto pá ?!!

I CAN DREAM ABOUT YOU

O que esta malta já na altura não entendia é que [“STREETS OF FIRE”] é um pulp-fiction genuíno. Não uma história de detectives nos 50s em modo noir, mas uma história de amor disfarçada de Western urbano onde os índios e cowboys são substituídos por Hell´s Angels (reais), rebeldes ou rockabillies e a femme fatale cantora de Jazz é desta vez uma vocalista de uma banda Rock.
[“STREETS OF FIRE”]  conta uma grande história de amor impossível entre o jovem rebelde e a leader of the pack; um romance que nunca poderia funcionar porque ambos pertencem a mundos diferentes apesar de se amarem; isto ao melhor estilo Casablanca e com um final perfeitamente a condizer.

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[“STREETS OF FIRE”] não seria o filme romântico que hoje é se não tivesse aquela sequência extraordinária em que Cody resolve partir ao som de TONIGHT IS WHAT IT MEANS TO BE YOUNG interpretada por Ellen Aim simultaneamente no palco.
Para mim é uma das cenas mais genuinamente bonitas e bem filmadas de todo o cinema romântico.
A forma como a música e principalmente a letra são usadas para contar a história da separação dos protagonistas sem que o filme precise de entrar por telenovelas sopeiras é simplesmente um dos pontos altos do cinema do género seja em que década for e Walter Hill não poderia ter acertado mais do que acertou na forma como encenou os últimos dez minutos ( até proíbiu Paré de chorar, pois “herói clássico não chora”).
Mesmo que o filme tivesse sido péssimo até aí, a sequência final com aquela canção e a forma como a câmera e principalmente a montagem encenam toda a narrativa são para mim simplesmente uma obra prima e uma escola de cinema ao mesmo tempo.

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Além disso complementa perfeitamente o início do filme, também com Ellen Aim em palco interpretando “NOWHERE FAST” enquanto o genérico de [“STREETS OF FIRE”] decorre sem pressas durante 12 minutos até que o filme depois “começa”; o que o torna talvez na sequência de créditos iniciais mais longa do cinema comercial de Hollywood, pelo menos até então. Sendo outra verdadeira aula sobre como se monta um filme e do poder da edição para narrar uma história sem um argumento precisar de perder tempo com palavras ou diálogos expositórios.
Só os primeiros 12 minutos de [“STREETS OF FIRE”] são por si só uma curta metragem.

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Resumindo, para mim [“STREETS OF FIRE”] é um dos melhores filmes de todos os tempos, essencialmente porque não envelheceu minimamente e agora que foi lançado finalmente em bluray na europa ( edição única ) , está melhor do que nunca e recomenda-se vivamente.

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CLASSIFICAÇÃO

[“STREETS OF FIRE”] é não apenas um divertido e simples filme de aventuras num registo Western urbano que acerta em cheio em tudo o que se propõe reproduzir mas também e principalmente uma das grandes love stories não só dos anos 80 como de todos os tempos na minha opinião.
Personagens-tipo excelentes, óptimas interpretações, modernizou o cinema e tem a melhor banda sonora de todos os tempos.

Cinco Planetas Saturno e um Gold Award

     

Ainda por cima é passado, numa espécie de realidade paralela com uma História alternativa e se isso não era já motivo para ser divulgado aqui no blog, só o facto de ser um dos melhores filmes românticos que poderão encontrar neste Dia dos Namorados de 2017, justifica agora este post enormemente especial.

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A favor: os personagens, inventou um monte de técnicas de cinema totalmente à frente do seu tempo, o ambiente ao melhor estilo universo paralelo, uma banda sonora fabulosa e inesquecível, as sequências em palco com a Diane Lane são fabulosas, todos os actores estão no seu melhor, tem um final absolutamente perfeito e intensamente romântico ao melhor estilo clássico.

Contra: a sequela bootleg que foi feita há um par de anos é impossível de ser encontrada, comprada ou pirateada, apesar de ter ganho um monte de prémios em festivais independentes.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER

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NOWHERE FAST

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TONIGHT IS WHAT IT MEANS TO BE YOUNG


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COMPRAR BLURAY – REGIÃO B (2) – EDIÇÃO UK
Sem legenda de espécie alguma, mas com um som fabuloso e extras do melhor com tudo o que sempre quiseram saber sobre o filme e mais alguma coisa.

bluray

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CANTORA MISTÉRIO



Se nunca viram [“STREETS OF FIRE”] mas conhecem a música “NOWHERE FAST” de tanto passar na rádio provavelmente não imaginam que esta não existe.
Durante décadas foi para mim um verdadeiro mistério descobrir quem estaria por detrás desta canção e de “TONIGHT IS WHAT IT MEANS TO BE YOUNG”.
Claro que eu sabia que o compositor era JIM STEINMAN que juntamente com TOM WAITS é simplesmente o meu autor de canções rock de todos os tempos.
Embora Steinman seja mais conhecido como o tipo que compôs praticamente todas as músicas que se tornaram clássicos inesquecíveis recorrentes nas rádios mundiais interpretadas por MEAT LOAF ou BONNIE TYLER e essencialmente o grande responsável pela grande carreira de ambos dentro do rock é ele a verdadeira alma do filme pois [“STREETS OF FIRE”] não seria o mesmo sem aquela banda sonora.

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Eu sabia que as duas músicas emblemáticas do filme tinham obviamente sido compostas por Jim Steinman ( misturando várias músicas antigas dele que já existiam em alguns albuns anteriores de Meat Loaf ) mas durante anos sempre me perguntei quem seria a vocalista que as interpreta, pois na banda sonora apenas está referido o nome da banda “FIRE INC.” como intérprete.
Investigando pela net, cheguei a um par de nomes referidos como vocalista original, mas nunca tive bem a certeza da veracidade da informação apesar desta aparecer repetida em vários sites ao longo dos anos onde as teorias abundam.
Ora acontece que o moderno documentário presente no bluray, não só resolve finalmente o mistério sobre quem canta as canções como ainda por cima apresenta uma resposta que eu não esperava de todo !
Embora esta explique por completo porque nunca se ouviu falar mais de quem teria interpretado as canções mesmo depois destas se terem tornado clássicos da rádio.
Pois bem, segundo o documentário, tanto “NOWHERE FAST” como “TONIGHT IS WHAT IT MEANS TO BE YOUNG” não foram interpretadas por ninguém em especial porque ambas as canções foram cantadas por 4 pessoas diferentes !

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Ambos os temas foram uma espécie de experiência secreta em que quatro pessoas ( não famosas ) diferentes gravaram as canções individualmente e depois os produtores misturaram as vocalizações dos vários interpretes de forma electrónica ( analógica sem digital nem nada ) criando no fim a voz que se ouve até hoje a interpretar as duas canções de Jim Steinman !

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E o mais incrível é que uma das vozes que consta na canção é também uma voz masculina !
“NOWHERE FAST” é interpretado por duas vozes femininas + uma masculina e “TONIGHT IS WHAT IT MEANS TO BE YOUNG” também conta com duas vozes femininas + uma masculina, embora uma das femininas seja diferente de música para música, o que totaliza quatro pessoas para duas canções.
Ora deste eu não estava nada à espera !
A ideia por detrás de tudo isto foi a de criar uma banda sonora de fantasia tão imaginária quanto a do mundo que pretendia ilustrar e portanto todos os grupos com excepção do grupo Rockabilly que aparece no filme ( e de Ry Cooder nos instrumentais ) são não só bandas fictícias como inclusivamente a banda sonora conta com vocalistas que na prática nunca existiram individualmente.
Ora digam lá que estavam á espera desta !
Nunca mais irão ouvir “NOWHERE FAST” da mesma maneira a partir de agora.

ALBUM SOUNDTRACK

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IMDb

http://www.imdb.com/title/tt0088194

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YOUTUBE REVIEW

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A SEQUELA

Para mim também foi uma verdadeira surpresa ter descoberto que alguém tinha feito uma sequela bootleg para [“STREETS OF FIRE”].

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Ainda por cima foi realizada por Albert Pyun mais conhecido por realizar filmes de porrada, ninjas e kickboxings com Jean Claude Van Damme nos anos 80.
Ora consta que o filme é absolutamente genial, apesar de ter muito pouco a ver em estilo com o original, pois parece que esta sequela não autorizada chamada “ROAD TO HELL” entra em total modo low-budget pelo cinema de autor a dentro e sai do outro lado como sendo um filme absolutamente brilhante; pelo menos de acordo com toda a gente que teve oportunidade de o ver quando passou em vários festivais independentes por onde arrecadou prémios quanto baste.
Estranhamente não se encontra em lado nenhum, não está editado e até em pirataria é impossível de ser encontrado o que é coisa rara nos tempos que correm, especialmente tendo em conta que o filme é recente e tudo.


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A única coisa que se encontra no online são trailers e um par de videoclips recriando hoje as canções originais.
A ideia por detrás da história é a de que Cody e Ellen na noite em que passaram juntos acabaram por gerar uma filha que Cody desconhecia ir ter quando se foi embora no final do primeiro filme.
Décadas mais tarde percorre uns EUA algo alucinogénios em busca da rapariga que entretanto, tal como a mãe é agora vocalista numa banda e canta inclusivamente novas versões de muitos dos seus êxitos antigos.

Se alguém souber onde encontrar isto em dvd, bluray ou pirataria , é dizer fachavor ! 
Rápido.

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4 thoughts on ““ESTRADA DE FOGO” (“STREETS OF FIRE”) Walter Hill (1984) EUA

    • YES ! Mas… estou a dar em doido para sacar o ficheiro. O link leva mais de dez horas para fazer o dowload e quebra sempre antes de completar. Ja tentei umas tres vezes e ainda nao consegui.

      Conseguiste sacar o filme ? Nao me podes enviar isso por wetransfer para alcaminhantegmail.com ? 😉

      Gostar

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