“BLADE RUNNER 2049” (“BLADE RUNNER 2049”) Denis Villeneuve (2017) EUA / INGLATERRA / CANADA

Eu nem acredito que consegui pela primeira vez em mais de trinta anos ver um filme no cinema em completo silêncio e sem a presença sequer de pipocas na sala !!
Nem telemóveis, nem teenagers aos risinhos nem nada durante as quase três horas de duração deste filme; ( acho que ainda estou em choque ). Isto hoje foi quase uma experiência transcendental e algo a que eu próprio já não estava nada habituado.
 Estou a ficar pior que um amigo meu que diz que se não está dentro de um centro comercial a ouvir tudo aquilo ao seu redor, não se sente vivo. Uma sala de cinema sem escumalha onde só se ouvia practicamente o ar condicionado de repente não me parecia… normal…

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A verdade é que foi um verdadeiro prazer assistir a este [“BLADE RUNNER 2049”] como se tivesse voltado atrás no tempo, usufruindo simplesmente do que estava no écran sem interrupções de maior; isto para lá do sempre irritante intervalo que me tira do sério por completo. Eu não quero ir comprar pipocas seus fdp !!
Este intervalo de hoje foi também totalmente irrelevante em termos comerciais para o próprio cinema visto que praticamente ninguém saiu da sala para ir onde quer que fosse e toda a gente estava à espera que começasse a segunda parte.

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Apesar da sala estar bem composta não se vendeu uma única pipoca a este público em particular o que achei absolutamente clássico; coisa que muito deve ter baralhado a gerência das salas no cinema de Shopping onde hoje fui obrigado a ver [“BLADE RUNNER 2049”] há poucas horas atrás numa sala cheia, obviamente só “com refugiados”; pessoal que escolheu aquele horário estranho numa sala menor que a principal só para estar longe das manadas e não ter que levar com os bois do costume.
Há décadas que não tinha uma experiência de cinema em que estivesse toda a gente absolutamente hipnotizada em conjunto a ver um filme e de repente voltei a ter prazer de estar dentro de uma Sala de Cinema sem estar permanente a tentar descortinar a quem é que eu vou aos cornos a seguir.
Silêncio quase total do princípio ao fim !
 Parecia uma catedral e foi o máximo.
E digo – “quase total” – pois mais ou menos de 15 em 15 minutos um estrangeiro dos seus -late 50´s – sentado atrás de mim murmurava baixinho para si próprio: – “Fuckin´ Awsome !!

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FUCKIN´AWSOME !

“Fuckin´ Awsome !!” foram as únicas palavras que ouvi repetidamente proferidas da boca de alguém durante toda a projecção de [“BLADE RUNNER 2049”] na tarde de ontem e essencialmente também resumiu por completo o meu estado de espírito à medida que o filme decorria. Fuckin´ awsome indeed !
Ainda para mais tendo em conta que eu fui ver isto esperando encontrar pela frente uma decepção pois desde que tinha visto aquele trailer com o Harrison Ford… a fazer de Harrison Ford… que eu pensava que isto de uma sequela para o filme de Ridley Scott se calhar não teria sido boa ideia…
Além disso o cartaz é uma merda; longe vão os tempos em que se faziam ilustrações a sério como a clássica pintura do poster original de BLADE RUNNER.
“Fuckin´ Awsome !!” foi-se ouvindo atrás de mim esporadicamente…
Mas sistemáticamente dos primeiros vinte minutos até ao fim.
Só no final durante os créditos é que ouvi o senhor comentar para amigos que ele próprio tinha pertencido à equipa que trabalhou no filme original há trinta anos atrás, adorava naturalmente o primeiro título e só tinha pena de não ter trabalhado neste também pois: “I´m so proud of this and I´m not even attached to the film !“

“Fuckin´ Awsome !!” portanto.
Eu não podia concordar mais.

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TRINTA ANOS ATRÁS

É inevitável que uma sequela para um filme tão icónico como foi o “BLADE RUNNER” original gere uma divisão extrema de opiniões sobre o resultado; como poderão ver se espreitarem o IMDb por exemplo.
Ou se adorou ou se odiou.
Pessoalmente estou a 100% com quem deu nota máxima a [“BLADE RUNNER 2049”]. 
Restaurou a minha fé no cinema de Hollywood enquanto produtor de Cinema com “C” grande, principalmente pelo sentido clássico da coisa em termos de composição visual, etc.
E embora não evite ao mesmo tempo um par de concessões ao cinema mais mainstream (pipoqueiro) soube navegar muito bem por entre aquela linha terrível que separa um bom filme comercial de um produto Hollywoodesco no pior dos sentidos.
Há quem o considere como tal, mas eu não posso discordar mais de quem acha que isto é apenas mais um título fast food.
Para começar é uma história fechada, não é o início de um franchise e logo por aí começa bem; à moda antiga.

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[“BLADE RUNNER 2049”] supreendeu-me bastante pelo seu lado artístico. De certa forma é um pouco como alguém já comentou noutra review e este, em certos momentos é quase um filme de autor muito bem disfarçado de filme pipoca, pois retirava-se os efeitos especiais para encher as medidas aos espectadores e teríamos ainda por aqui uma história que poderia perfeitamente ter sido uma peça de teatro. Tal como o primeiro filme também o poderia ter sido ( aliás, o primeiro argumento para o primeiro filme, foi escrito para ser totalmente passado em apenas alguns interiores e nada do que conhecemos visualmente no exterior estava planeado para ser filmado sequer ).
[“BLADE RUNNER 2049”] segue essa linha; e curiosamente abriu de uma forma que eu gostei muito pois entrou imediatamente pelo filme original a dentro mesmo que praticamente nenhum espectador à minha volta tenha reparado.
 ; ( com excepção de um certamente ).

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A abertura de [“BLADE RUNNER 2049”] foi claramente inspirada nos storyboards de Ridley Scott criados há 30 anos atrás para a abertura do filme original; abertura essa que nunca foi rodada por falta de verba e também porque nessa altura o filme ainda era para ter como protagonista Dustin Hoffman e não Harrison Ford.
[“BLADE RUNNER 2049”] ter começado da forma que começou foi algo que me agradou por demais e fez-me pensar que o novo realizador conhecia mesmo muito bem o material original de Ridley Scott; até mesmo aquele que nunca foi levado ao écran décadas atrás.
Não é uma reprodução exacta da acção mas é uma aproximação muito interessante ao material original que teria aberto o BLADE RUNNER protagonizado por Dustin Hoffman.
Portanto a partir daqui eu percebi que isto ia correr bem.

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BLADE RUNNER 2017

O “BLADE RUNNER” original ainda foi produzido numa época em que o cinema existia por géneros e não tinha necessariamente que ser pensado para ser apreciado por largos grupos de espectadores só para encher cadeiras. As pessoas iam ver Westerns, Policiais, Ficção-Científica, Terror, acima de tudo porque gostavam desses géneros; isto quando o cinema ainda não tinha sido transformado numa moda alicerçada em campanhas de marketing dirigidas de forma a abranger no mesmo filme toda a gente; desde o netinho à avózinha de 70 anos.
Como diz Ridley Scott nos extras do filme original, apesar do interesse comercial do estúdio, “BLADE RUNNER” ainda teve o luxo de ser pensado e produzido primeiro para o público que consumia e gostava de ficção-científica. O resto que viesse por acréscimo era bem-vindo mas antes havia que garantir que as audiências da FC quisessem mesmo encher as salas com um bom produto – do género- .
O facto de na altura o terem tentado transformar num blockbuster pipoca atirando-o para testes de audiência foi precisamente o que o tornou num fracasso de bilheteira quando estreou.

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Ora na conjectura comercial actual, onde Hollywood transformou o mundo inteiro num enorme McDonalds do cinema o que importa é que cada filme encaixe em todo o tipo de público.
Nem importa se gostam de um género ou não, porque isso hoje em dia já nem existe. Os “espectadores” gostam daquilo que lhes disserem na televisão para gostar; “gostam” daquilo que aparece “analizado” nos “programas de cinema” que passam em particular na TV tuga por magazines de cinema mas que na sua maioria não passam de braços publicitários dos grandes estúdios de Hollywood e parte da sua estratégia de marketing.
O que existe saído de Hollywood são estreias da moda e hype controlado.
Os –Géneros- já não têm qualquer importância hoje em dia, pois o que dita o sucesso de um filme é o facto de conseguir estar na moda ou não.
Num universo comercial assim seria óbvio que algo como [“BLADE RUNNER 2049”] para ter luz verde em termos de produção tenha tido mal ou bem que guiar-se por algumas pressões comerciais mais pipoqueiras inevitáveis e como tal, eu ao ler certas críticas péssimas sobre esta excelente sequela que estão postadas no IMDb, fico com a impressão de que devo ter sido o único a não esperar um milagre quando entrei na sala para ver isto. Sincerametne não percebo mesmo o que certas pessoas esperavam encontrar no contexto comercial em que vivemos…é um verdadeiro milagre o filme ter saído como saiu !! Não se fazia cinema assim há muito lá pelas paragens de Hollywood.

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[“BLADE RUNNER 2049”] faz um trabalho admirável em manter-se na corda bamba sem nunca cair exageradamente para lado nenhum.
Apesar disso é esse constante equilíbrio precário que inevitavelmente coloca também em evidência as suas maiores “falhas” pois seria impossível no contexto da Hollywood actual que um filme como este não tivesse um momento ou dois menos felizes.
Neste caso [“BLADE RUNNER 2049”] tem quanto a mim duas coisas menos boas.

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DECKARD

Para começar, tal como eu suspeitava dispensava-se Harrison Ford nesta sequela.
Eu mal vi os trailers percebi logo que Ford ia ser o elo mais fraco de toda a produção; isto porque Harrison Ford já está para lá daquele estatuto de actor.
Harrison Ford está no mesmo patamar de Tom Cruise.
Já ninguém se lembra de qualquer personagem que Cruise tenha interpretado nas últimas décadas onde nos tenha feito esquecer o actor; os filmes com Tom Cruise são isso apenas: – filmes do Tom Cruise – o que para um espectador mais exigente retira imediatamente a nossa imaginação de dentro do filme.

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Harrison Ford tem actualmente o mesmo problema e por um pouco [“BLADE RUNNER 2049”] não se tornava – noutro filme do Harrison Ford – apenas .
Por mais filmes que faça, por mais excelentes e sólidas interpretações que continue a ter, o que chega ao espectador são filmes: – do Harrison Ford.
Até o novo Star Wars sofreu com isso. Não tivemos Han Solo, tivemos Ford a bordo do Millenium Falcon.
Tal como [“BLADE RUNNER 2049”] infelizmente cedo se percebeu pelo trailer que não iria poder contar com Rick Deckard, porque Harrison Ford já supera qualquer personagem.

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Quanto a mim foi um erro tremendo terem envolvido Ford nesta sequela.
Poderiam ter mantido o personagem; até poderiam ter seguido o mesmo caminho que seguiram com Rachael por exemplo que não me chateava tanto; agora [“BLADE RUNNER 2049”] não conta com Rick Deckard de todo.
E sendo assim mais valia que Ford não tivesse entrado nesta continuação para a história de Deckard, pois Deckard já não habita o mundo de BLADE RUNNER visto que quem mora por lá agora é Harrison Ford. E isto independentemente do trabalho excelente ou não do actor. Apenas já não é Deckard que está no ecran.

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Algo que pelo visto também foi notado pela produção pois felizmente ao contrário do que poderia aparentar no trailer [“BLADE RUNNER 2049”] não é um – buddy movie – com Ford e Gosling fazendo parceria ao longo do filme.
Felizmente que ao menos em [“BLADE RUNNER 2049”] , a presença de Deckard só é necessária por alguns minutos finais ; ( se calhar até demais ) ; mas nem por isso menos sintomáticos desta nova era moderna do Blockbuster e do hype comercial à volta dos filmes.

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[“BLADE RUNNER 2049”] comercialmente terá tido um financiamento muito mais fácil com Harrison Ford do que teria sem Harrison Ford.
Como tal, ou aceita-se isto e segue-se em frente ou menospreza-se todo o restante trabalho com base em pormenores como este, ainda para mais inevitáveis hoje em dia.
Pessoalmente quando Deckard entra em cena, o mundo de [“BLADE RUNNER 2049”] já me tinha cativado tanto que sinceramente pouco me importei que fosse o Harrison Ford e não Deckard a passar a protagonizar esta história.
História que já agora, diga-se de passagem foi também escrita pelo argumentista do “BLADE RUNNER” original, Hapton Fancher o que para mim foi felizmente um dos pontos altos do filme no que toca não só à continuação da história, mas principalmente também ao redor das inúmeras e quase infinitas referências que podemos encontrar em [“BLADE RUNNER 2049”] relativas ao original. O que torna também este filme noutra daquelas caças ao tesouro cinéfilas com muito por descobrir certamente em visões futuras.

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TYRELL 2.0

Substituindo a Tyrell Corporation original [“BLADE RUNNER 2049”] conta com Jared Leto no papel do novo senhor comercial que lucra com o negócio dos Replicants; e para mim esta é a segunda “falha” do filme. Talvez mesmo a pior.
Mais uma vez isto não é propriamente problema da prestação de qualquer actor ( até porque a nível de elenco tudo está muito bem composto ) mas um detalhe em termos de argumento.
Sinceramente não sei porque não optaram por dar continuidade à própria mística da Tyrell Corporation pois o que [“BLADE RUNNER 2049”] parece apresentar por aqui é assim uma espécie de Tyrell 2.0 mas sem o carisma da original.
Embora visualmente seja do outro mundo mesmo.

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Na verdade talvez a coisa mais irritante presente em [“BLADE RUNNER 2049”] talvez seja mesmo Niander Wallace ( nome por demais elaborado para se tornar irónico ) e que é interpretado por Jared Leto, sendo caracterizado mais como se fosse um vilão de um daqueles filmes de James Bond a meio dos 70s do que propriamente como alguém temível ou sem escrúpulos para ser levado a sério ou conseguir criar qualquer tensão. Estamos sempre à espera que a seguir apareça por ali – o mini-me – também.
Para tentar compensar isto o filme opta por entrar por alguns momentos mais viscerais à volta do personagem Wallace e da sua crueldade estereotipada para com os Replicants; que, na verdade não serve para nada na história a não ser estabelecer aquilo que já se sabe do próprio universo herdado de BLADE RUNNER; a malta da corporações são umas bestas.
 Passem à frente porque quando “o vilão” entra em cena, a história parece que faz pausa por minutos a fio. Sim, já se sabe que ele é mau. Next !…

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Jared Leto está em [“BLADE RUNNER 2049”] claramente como uma concessão do realizador a Hollywood e às audiências burras modernas. Wallace está em [“BLADE RUNNER 2049”] para mostrar quem é o mau, quem é o vilão pois de outra forma os americanos eram capazes de ficar um bocado sem perceber quem são os maus e quem são os bons.
Coisa que ficou muito mais ambígua no original, pois o próprio Tyrell estava bem caracterizado de um ponto de vista humano. 
A Wallace por aqui em [“BLADE RUNNER 2049”] só lhe falta mesmo um gato Replicant para acariciar enquanto mostra o quanto é mau para a câmera e isso irrita.
Por outro lado, parece que o realizador também percebeu que isto de fazer concessões comerciais tem limites e como tal Wallace acaba por não ter muito tempo de écran. Até porque não tem muito para fazer na história a não ser, – ser mau; e meter estilo chiq, já agora…

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Gostei muito mais da sua ajudante. Aliás, Luv foi mesmo dos meus personagens favoritos neste filme.
Há quem não lhe tenha achado piada mas eu pessoalmente achei-a muito bem caracterizada na sua simplicidade.
Há alturas em que tem precisamente aquela ambiguidade que havia em Tyrell no original, apesar de aqui termos um personagem mais em modo Van Damme em estilo Replicante para a porrada.
Gostei muito da actriz e gostei da expressividade em alguns momentos de silêncio onde o olhar substitui e muito bem as palavras; tivessem seguido mais este caminho com Wallace, o vilão de Jared Leto e se calhar o contexto dentro desta nova Tyrell versão 2.0 teria sido muito mais eficaz para a história do que acabou por ser.
De qualquer forma se [“BLADE RUNNER 2049”] pode ser acusado de algumas cedências ao cinema braindead actual será precisamente por tudo o que envolve a malta da vilanagem por aqui.

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O AMOR ESTÁ ( LITERALMENTE ) NO AR

Não estava nada à espera de encontrar uma boa história de amor em [“BLADE RUNNER 2049”] mas é isso que este filme também é.
Talvez duas ou mais até; mas o certo é que o coração emocional da história ( já que não se pode contar com os vilões para isso ) está surpreendentemente numa excelente pequena história de amor que envolve o Agente K de Ryan GoslinG e a Holograma de companhia que habita como se fosse um fantasma no interior do seu apartamento; ( a fazer lembrar imenso toda a relação romântica entre o exorcista e a fantasma do filme “Keeper of Darkness” que é incrivelmente parecida também ) .
Mais do que o software que organiza tudo no lar deste novo Blade Runner, -Joi– a Holograma é uma verdadeira Inteligência Artificial que a partir de certa altura começou a ganhar sentimentos pelo seu utilizador. Sentimentos correspondidos, o que coloca [“BLADE RUNNER 2049”] em termos românticos ao mesmo nível do fabuloso “CYBORG SHE” ou até da história de amor entre uma outra “Replicant” e um outro “Blade Runner” que podem encontrar no também extraordinário “NATURAL CITY”, um BLADE RUNNER Sul Coreano já com alguns anos mas que continua a ser do melhor se procuram uma alternativa ao universo de Deckard em termos cinematográficos.

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[“BLADE RUNNER 2049”] é até mesmo muito parecido em tom e história com “NATURAL CITY” curiosamente e uma das razões porque gostei tanto da história de amor em [“BLADE RUNNER 2049”] é porque de repente fez com que este se assemelhasse bastante à atmosfera que encontramos nesse Blade Runner moderno Sul Coreano; que percorre mais ou menos o mesmo caminho romântico na forma como aborda o que poderá ser o amor quando contextualizado à volta de um mecanismo artificial com consciência; ou talvez não.

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Adorei a Holograma, adorei o ambiente romântico, adorei a originalidade da ideia da cena de amor e adorei todo o contexto em termos de hardware que o filme mostra ao redor deste tipo de – apps – que não tarda nada ainda nos entram mas é mesmo pela casa dentro num futuro mais próximo do que sonhamos.

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FUTURE NOIR 2.0

Em termos conceptuais [“BLADE RUNNER 2049”] está na verdade extraordinário; seja na ideia ao redor dos softwares, nas novas vistas das cidades futuristas que modernizaram os conceitos originais ou na forma como nos apresenta novos ambientes e os expande de forma por vezes épica; sem deixarem de ser ao mesmo tempo intímistas.
[“BLADE RUNNER 2049”] em termos de ferramenta de trabalho para ilustração para mim entrou já directamente para aquela pequena lista de filmes que recomendo vivamente a toda a gente que se interessa por pintura digital ou não e quiser aprender as bases da mesma. Não poderão melhor cinema para aprenderem a ilustrar do que “Casablanca” ; “The Sound of Music” ; “How the West Was Won” ; “Blade Runner” e agora também esta sequela; que é absolutamente notável em termos de minimalismo de iluminação na forma como o filme mostra composições, paisagens e enquadramentos. Por vezes apenas recorrendo a jogos de luz e sombra que fazem com que imaginemos mais pormenores do que aqueles que estão na realidade no écran.

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[“BLADE RUNNER 2049”] mantém aquela atmosfera – noir – original mas com uma estética contemporânea e apresenta uma incrível modernização do mundo clássico de BLADE RUNNER.
Já não tem aquele estilo – vintage – tão poético é certo; agora é muito mais frio, sujo, cinzento e cru, mas visualmente é uma actualização extraordinária dos designs originais; tanto a nível de arquitectura como a nível de veículos.
Em termos contextuais é como se o BLADE RUNNER original se tivesse passado esteticamente nos anos 40/50 e [“BLADE RUNNER 2049”] agora se situe pela nossa época mas tendo toda a sua tecnologia extrapolada por mais trinta anos.
Absolutamente notável a todos os níveis e posso dizer que se [“BLADE RUNNER 2049”] tem uma grande mais valia, é o facto de ser visualmente um assombro e dar-nos imagens que ainda ninguém tinha conseguido colocar no écran ou imaginado antes.
E se isto não é aquilo que deveria representar um dos primeiros mandamentos do Cinema a sério não sei o que será.
Visualmente [“BLADE RUNNER 2049”] de 2017 é também uma obra prima, tal como foi o original de 1982. Por direito próprio.

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THE PRINCESS BRIDE

É muito estranho olhar para a Robin Wright que aqui interpreta o equivalente ao capitão da bófia do filme original e pensar que esta senhora foi um dia “A Princesa Prometida” no genial filme de Fantasia do mesmo nome ; “THE PRINCESS BRIDE” realizado por Rob Reiner há também trinta anos; ( review para breve ).
Robin Wright tem em [“BLADE RUNNER 2049”] um bom personagem. Apesar do seu tempo de écran ser também limitado é no entanto alguém que cria muito mais tensão do que suposto vilão do filme ; Wallace, o que já não é mau…

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ORIGAMI 

Edward James Olmos retoma também aqui o seu Gaff original. Embora sinceramente eu o tenha achado particularmente desperdiçado pois a sua composição sofreu um bocado do mesmo problema que Deckard.
James Olmos entra nisto, mas visualmente Gaff também já não habita o universo de BLADE RUNNER.
Pelo menos não da forma que eu gostaria de o ter visto e não como foi apresentado. Reencontrar aquele personagem era um dos pontos altos do filme para mim e fiquei bastante decepcionado com o resultado pois Gaff não estava mais lá.
[“BLADE RUNNER 2049”] por outro lado acerta em cheio com o resto das referências. Como já referi, o filme é uma caça ao tesouro e isso também se estende aos próprios personagens.
Gostei da referência estética a Pris original, gostei do toque muito particular ao famoso – “Tears in the Rain” moment – do filme original e regra geral acho que esta sequela tem um elenco fantástico. Especialmente porque está cheio de caras que eu desconhecia por completo; a começar pela actriz Cubana , Ana de Armas que dá vida ao Holograma –Joi– e que eu nunca tinha visto em lado nenhum.

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Outro que continua a surpreender é o Wrestler Dave Bautista, cada vez melhor actor e que aqui tem também outro dos melhores momentos do filme.
Aliás talvez seja dele até o melhor personagem do argumento; embora na minha opinião e para minha grande surpresa Ryan Gosling tenha sido um Blade Runner novo fabuloso pois esqueci-me por completo do actor por detrás do personagem.
A sua química com a Holograma é para mim um dos grandes pontos altos da história e Goslin até consegue fazer Ford parecer mais Deckard do que na realidade este conseguiu ser quando abre a boca para dizer coisas.
As melhores cenas com Ford são precisamente as que envolvem uma maior participação directa de Ryan Goslin.
E também curti o cão do Ford.
Replicant ou não.

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E já agora, em termos de mitologia BLADE RUNNER vamos lá ver se é desta que termina a discussão idiota sobre se Deckard seria um Replicant ou não no “BLADE RUNNER” original !! ( A julgar pelos novos videos no youtube com mais teorias imbecis parece que não serviu de nada, a sequela sequer ).
Mais explicito do que fica em [“BLADE RUNNER 2049”] já é difícil, caramba !!
Por falar nisso, a explicação porque Deckard teve que ser um Replicant desde o início também é bastante boa o que só demonstra que esta história foi muito bem pensada para ligar muita coisa do original e não é de todo o – cash grab in – que muita gente acusa de ser.
A forma como junta os dois universos esteticamente ligeiramente diferentes para mim foi bastante bem pensada e é outro dos pontos altos do filme na minha opinião.

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HANS ZIMMER

Antes que me esqueça outra coisa, onde [“BLADE RUNNER 2049”] brilha para minha surpresa é também na banda sonora.
Não é tão melódica e romântica em estilo vintage como a de VANGELIS originalmente, mas HANS ZIMMER foi uma boa escolha pois as suas notas tornam por vezes as cenas ainda mais épicas e imponentes sem nunca esquecer de alguns acordes mais intimistas; indo buscar precisamente memórias das melodias originais de há trinta anos atrás.
E por falar em som, [“BLADE RUNNER 2049”] é a pura demonstração do poder do som para ampliar na nossa imaginação tudo o que são efeitos visuais e atmosferas em termos de sets.
[“BLADE RUNNER 2049”] tem um – sound design – do outro mundo mesmo.

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O último trabalho de som extraordinário dentro da ficção-científica que encontrei foi em “INTERSTELLAR” que é ( juntamente com “ARRIVAL” ) outro dos meus títulos de FC favoritos dos últimos anos, mas [“BLADE RUNNER 2049”] arrasa !
Este é mesmo um daqueles filmes que pede uma grande sala e um extraordinário sistema de som pois o som é uma personagem à parte e também a razão porque todo este mundo parece tão real tendo recebido este upgrade visual moderno que não poderia ter corrido melhor a todos os níveis.

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CLASSIFICAÇÃO

[“BLADE RUNNER 2049”] é tudo o que eu sonhava que deveria ser mas nunca acreditei que pudesse realmente vir a ver no écran. Desde o início que os poucos trailers que vi não me entusiasmaram por aí além e estava mesmo convencido que isto ia ser interessante mas pouco mais do que isso; talvez porque sempre achei que Ford não funcionava de todo como Deckard desta vez ( como acabei por comprovar ).

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Por outro lado, adorei o elenco.
Esquecendo o personagem inútil de Leto, penso que todos os personagens têm o seu momento e até a mais pequena interpretação, é não só totalmente sólida com o carisma dos actores e a própria empatia entre os personagens acaba por transparecer para o público , embora haja quem não tenha sentido isso de todo, o que para mim é um mistério insondável.
Pessoalmente acho que [“BLADE RUNNER 2049”] acertou em cheio em grande parte do elenco e o único erro de casting foi mesmo o de Harrison Ford pois, Deckard deveria ter permanecido no universo BLADE RUNNER como uma figura do passado, quase contornos míticos. Acho que a história teria funcionado muito melhor assim.
Por outro lado, a história que temos não é nada má não senhor.
Respeita integralmente todas as suas origens, homenageia por demais muitos pormenores que todos adoramos no filme original e sabe modernizar muitos dos conceitos.

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É um argumento inteligente contendo inúmeras questões filosóficas e morais, tal como já tinha acontecido no filme anterior de Denis Villeneuve , “ARRIVAL”; expande o universo BLADE RUNNER não só visualmente, como acima de tudo temáticamente; contém um par de bons twists que não sendo do outro mundo são muito eficazes para a narrativa central e acima de tudo [“BLADE RUNNER 2049”] é um verdadeiro BLADE RUNNER modernizado; não é de todo a produção típica de Hollywood para enganar patos à custa da nostalgia de filmes antigos populares como corre por aí em algumas opiniões.

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Como tal, pela surpresa que me pregou de forma genuína, pelo impacto que me causou a todos os níveis, por ter atingido as minhas notas máximas tanto a nível de design, de som , de efeitos, de emotividade, de romance, de intriga, de sequências de acção e por apesar de nos ter dado um filme muito diferente do original mas nem por isso menos genuíno, respeitando o material de origem só posso mesmo atribuir também a [“BLADE RUNNER 2049”] a minha classificação máxima de excepção.
Sendo assim…

Cinco Planetas Saturno e DOIS Gold Award(s)


     

Atribuídos precisamente porque [“BLADE RUNNER 2049”] marcou-me muito mais do que eu estava à espera que o pudesse vir a fazer e por ter entrado em definitivo também para a lista de filmes da minha vida para fazer companhia ao original.
Tenho a certeza de que ainda irei rever esta sequela tantas vezes quantas já revi o original.
Se “CITY OF LIFE AND DEATH” marcou-me pelo impacto emocional da história e da própria realização do filme; se “VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS” me surpreendeu a todos os níveis por ser uma adaptação que eu considero perfeita da BD que mais me influenciou enquanto ilustrador desde criança, então seria impensável não rebentar excepcionalmente a escala também agora com [“BLADE RUNNER 2049”] pois na minha opinião está bem perto de ser um filme perfeito. Um filme que só não conseguiu atingir esse patamar de pura perfeição porque para seu mal, é um produto da Era hollywoodesca da treta em que vivemos e como tal precisou de fazer um par de concessões que o “menorizaram” um bocadinho.

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Em última análise [“BLADE RUNNER 2049”] “falha” também precisamente pelo mesmo motivo que NATURAL CITY o BLADE RUNNER Sul Coreano também “falhou”; [“BLADE RUNNER 2049”] precisava de um Rutger Hauer e Roy Batty só houve um na história do cinema, não podendo ser… Replicado…
Ainda.

A favor: o ambiente visual e sonoro, respeita por completo a herança do filme original, é uma excelente continuação em termos de história para o filme original, o elenco para lá de Ford é fantástico e todos os actores/personagens têm uma química extraordinária no écran até nas cenas mais simples, Ryan Goslin é um óptimo Blade Runner, a história de amor central com a holograma é fabulosa e está ao melhor nível do que se costuma ver apenas no cinema oriental ( ver: “NATURAL CITY” ; “CYBORG SHE” ), a banda sonora é perfeita, todo o design é notável, fotografia, Set design, efeitos, tem um estilo intimista de cinema de autor totalmente apropriado para este universo, não é um filme de acção que eu pensava que ia ser apenas, tem imensa alma e não é apenas um produto pré-fabricado para sacar uns cobres aos fãs do original.

Contra: Deckard era perfeitamente dispensável e o facto de Harrison Ford entrar nisto é totalmente irrelevante, Ford já não é Deckard de todo nesta sequela, o personagem Wallace de Jared Leto não serve para nada e mais parece um vilão de um mau filme de James Bond.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER 1

Completamente para agradar a gringos e dá a ideia totalmente errada do filme.
Parece mas isto não é um filme de acção.


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TRAILER 2
Melhorzinho mas dá uma ideia errada na mesma…há que enganar os gringos para a malta pensar que isto é um filme do Michael Bay senão…


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REVIEW
Excelente review SEM SPOILERS; podem espreitar á vontade pois não revela nada do filme e vale a pena verem este video.


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IMDb
http://www.imdb.com/title/tt1856101

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SE GOSTOU DESTE VAI GOSTAR DE:
E para hoje as recomendações vão em estilo diferente porque importa recomendar duas alternativas muito curiosas passadas num universo BLADE RUNNER.
Cliquem em ambas as capas e sigam para as respectivas reviews.

poster

2046_01

VIRTUAL REVOLUTION_02

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Blade_Runner_Workprint_03


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One thought on ““BLADE RUNNER 2049” (“BLADE RUNNER 2049”) Denis Villeneuve (2017) EUA / INGLATERRA / CANADA

  1. Pingback: “ROGUE WARRIOR : ROBOT FIGHTER” (“ROGUE WARRIOR : ROBOT FIGHTER” ) Neil Johnson (2017) AUSTRALIA / EUA | Universos Esquecidos - Cinema , Livros, Audiobooks e BD

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