“I AM A GHOST” (“I AM A GHOST”) H.P. Mendoza (2012) EUA

[“I AM A GHOST“] foi uma verdadeira surpresa.
Tendo em conta que este filme foi produzido com 10.000 dólares ; ( recorrendo a doações do público no site Kickstarter );  …dez mil dólares; não dez milhões e consegue um resultado destes em termos de atmosfera é a prova de que o cinema imaginativo não depende de orçamentos mas sim de criatividade, de uma boa história e de talento para a contar.
[“I AM A GHOST“] é um verdadeiro filme assombrado que se recomenda vivamente só pelo conceito.

POSTER 3

Não posso infelizmente detalhar muito sobre o que se passa aqui pois o filme só tem 72 minutos e o seu fascínio depende muito do facto do espectador começar a ver isto sem saber absolutamente nada sobre o mistério.
Se gostam de boas histórias sobrenaturais sobre almas penadas e nunca viram [“I AM A GHOST“] recomendo vivamente que apaguem as luzes e o vejam do princípio ao fim sem procurar mais informação. Podem ver antes o trailer mas mesmo este apesar de não revelar o ponto central do mistério acaba por conter uns pequenos *spoilers*; por isso não o vejam antes de verem o filme; façam-no literalmente às escuras, sózinhos e noite dentro se possível.

POSTER

VIEW MASTER CINEMA

[“I AM A GHOST“] é absolutamente fascinante logo de início; alguns no IMDb preferem classifica-lo de aborrecido e repetitivo como o raio mas isto não é de todo um filme para o pessoal das pipocas e blockbusters. Isto é um bom e velho filme de fantasmas com uma história à moda antiga mas com um pequeno twist moderno para lhe dar mais sabor.

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Acontece que [“I AM A GHOST“] causa desde logo imensa estranheza pela forma como todo o filme está enquadrado pois parece que estamos a acompanhar a história através de um qualquer ecran de um ViewMaster antigo pelas bordas redondas que estão colocadas dos lados do ecrã e isso não é muito comum. Ainda por cima o início da história é todo filmado em planos fixos ao melhor estilo Kubrik e igualmente frios ou impessoais o que cria desde logo uma atmosfera inquieta.

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Durante os primeiros 15 minutos a camera está lá mas não se desloca e apenas vemos a protagonista na sua vida diária dentro de casa como se estivessemos colocados mesmo no centro do enquadramento a observá-la estáticos, enquanto Emily repete a sua rotina vezes sem conta ao ponto de tudo nos começar a parecer tão estranho quanto entediante mas ao mesmo tempo cativante pois não conseguimos desviar os olhos.
O início de [“I AM A GHOST“] pode ser “parado” mas tem uma razão de ser que depois vai compensar mais lá para o final quando o segredo de Emily começa a ganhar forma e as respostas aparecem já com um estilo de realização mais “dinâmico”.

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Logo na realização [“I AM A GHOST“] é um filme que nos deixa intrigados. Ao início o filme corre o sério risco de parecer entrar por aquele estilo de cinema-de-autor totalmente hermético, secantemente ultra pretencioso e são precisamente esses 15 minutos iniciais que estão na origem das principais reclamações no IMDb quando muito “espectador” simplesmente desistiu de acompanhar a história ao perceber que [“I AM A GHOST“] não era o típico filme de fantasmas teenager que Hollywood recicla vezes sem conta.

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Aqueles que conseguem no entanto aguentar os primeiros minutos, serão depois recompensados com uma história labirintica que se desenvolve ao melhor estilo “COHERENCE” ou “TRIANGLE” até que finalmente o espectador irá perceber o que se passa. É nesses momentos que compreendemos como [“I AM A GHOST“] é um filme muito bem pensado pois fica claro porque precisava de ser tão estático e parado ao início. Mais não posso dizer pois estragarei a surpresa.

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EU SOU UM FANTASMA

[“I AM A GHOST“] como muita gente refere em várias reviews na internet, inicialmente e estupidamente é aquele filme em que nos passa ao lado o facto de isto ser uma história de um fantasma contada do seu ponto de vista.
Também eu quando o filme começou apesar do título “EU SOU UM FANTASMA” (Duh !) fiquei tão hipnotizado pela atmosfera dos ambientes assombrados que só quando entra em cena a voz da médium que tenta contactar com Emily é que eu me apercebi verdadeiramente do tipo de história que estava a ver; apesar do óbvio anteriormente, a verdade é que [“I AM A GHOST“] soube mesmo criar um clima verdadeiramente assombrado desde o primeiro segundo que coloca o espectador quase em transe por parecer um produto tão estranho quando começa.

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[“I AM A GHOST“] é a história de Emily que, julga ela vive uma vida normal, habitando sozinha uma velha casa onde diariamente se ocupa das suas rotinas pessoais; acordar, fazer o pequeno almoço, ir às compras, limpar a casa e tudo o mais de banal que possam conceber. O problema é que apesar de Emily sentir que algo de errado se passa na casa, ( talvez uma presença sobrenatural  que a assusta ) ela própria não faz mesmo ideia de que o fantasma é ela e que o facto de ciclicamente repetir o mesmo dia em que morreu vezes sem conta é o que está a provocar o assombramento da mansão.

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Emily não sabe, mas de cada vez que entra novamente no quarto da sua mãe é ali que se encontra noutro plano ( noutra dimensão (?) / no nosso plano de existência ) a médium Sylvia que foi contratada pela família que ali vive para que esta os livre dos Poltergeist que ocorrem a todo o instante na casa. Sylvia, mais do que pretender livrar-se da fantasma quer ajudá-la quando ao investigar a vida de Emily aos poucos descobre que a história da sua morte se calhar não é bem aquilo que Emily acredita ser; até que finalmente ela admite ser uma alma penada.

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Contrariamente ao que é normal quando Sylvia faz bem o seu trabalho com os espíritos que exorciza, Emily não consegue encontrar a LUZ que a fará abandonar de vez o limbo em que se encontra. Toda a história subsequente em [“I AM A GHOST“] tem a ver com a explicação para o facto disso não estar a acontecer e a jovem fantasma continuar presa condenada a repetir eternamente o mesmo ciclo sem fazer a mínima ideia de que o está a fazer.

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NOT BEETLEJUICE

Por esta altura quem me lê agora e conhecer bem o velho título de Tim Burton já deve estar a pensar que [“I AM A GHOST“] será algo semelhante a “BEETLEJUICE“. Esqueçam. Também não é propriamente uma história da série “Ghost Whisperer/Em Contacto“.
Além de ser essencialmente um drama e não conter um pingo de humor negro sequer, [“I AM A GHOST“] tem por base um conceito particularmente intrigante com que eu próprio já me deparei em literatura que aborda temáticas sobrenaturais mas que até agora ainda não tinha visto colocado numa história para cinema. Ou pelo menos não da forma que é usada aqui.
Infelizmente não posso comentar muito mais porque isso iria revelar a razão porque Emily não consegue seguir em frente mas posso dizer que a ideia é particularmente intrigante mesmo enquanto questão filosófica, quase.

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[“I AM A GHOST“] joga incrivelmente bem com o conceito em que se baseia. Não apenas Emily é uma personagem cativante como o trabalho da jovem Hanna Ishida que a interpreta é ainda melhor. Este é o tipo de filme que depende por completo da boa actriz protagonista que conseguiu, até porque todo o filme é centralizado em Emily e praticamente não vemos mais nenhum actor em cena. Inclusivamente “Sylvia” é durante toda a história apenas uma voz com que Emily comunica visto que a médium não consegue ver os espíritos mas apenas ouvi-los e Emily presa no seu ciclo temporal paralelo também julga estar permanentemente sozinha do seu lado.

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[“I AM A GHOST“] é um dos filmes sobrenaturais mais originais que já vi. É pena que o seu estilo “pouco comercial” afaste muita gente mas estamos perante um verdadeiro exemplo de que o estilo de realização tinha mesmo de ser assim pois de outra forma a história perderia toda a sua força se tivesse sido filmado em estilo pipoqueiro Hollywood para agradar às massas. [“I AM A GHOST“] não é cinema intelectualoide pretencioso pois a resolução do mistério está totalmente dependente do estilo visual que esta produção de 10.000 dólares ( rodada em 7 dias ) precisa de ter e do género de montagem que utiliza para o potenciar nas melhores alturas.

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CASA ASSOMBRADA

A forma como o ambiente assombrado permanente depende dos enquadramentos, da montagem, do som, da fotografia e dos “cenários” é neste caso incontornável. Se algum destes pormenores não estivesse lá, [“I AM A GHOST“] teria falhado igualmente e tal não acontece.
O conceito é excelente e como filme-puzzle é como dizem os americanos, um verdadeiro “mind-fuck” ; a história não é complicada mas [“I AM A GHOST“] é realmente um daqueles filmes labirinticos que nos agarra. Primeiro porque parece tão estranho ao início, depois porque o estilo gótico da casa é intrigante como o raio e depois porque quando a médium Sylvia entra em cena nós precisamos mesmo perceber porque Emily continua a assombrar o local mesmo quando ela própria parece estar a ser assombrada.
Além disso o filme tem apenas 72 minutos e não demora muito até que as respostas surjam mesmo quando o pacing da narrativa parece uma “grande seca” aos olhos da maioria do público pipoqueiro de short-attention-span.

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[“I AM A GHOST“] é por isso mais do que um filme de terror. Na verdade não é particularmente assustador, mas isso não quer dizer que seja um filme para verem de dia. Não façam uma coisa dessas !
Este não é de todo um filme que resulte se o virem com a luz do sol. Nem sequer à luz da lâmpada.
[“I AM A GHOST“] é uma história de fantasmas clássica para ser vista de noite para melhor efeito e portanto se gostarem de contos sobrenaturais não estraguem esta verdadeira experiência limitando-se a ver isto à luz do sol, com amigos, etc.
E espero sinceramente que não sejam também daqueles “que espreitam” os filmes – “para ver se gostam” – clicando em vários bocados da história em fast-forward como eu conheço algumas pessoas que o fazem por aí.

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[“I AM A GHOST“] é cinema sobrenatural clássico, para ser consumido à moda antiga. Noite dentro, sozinhos e com a menor distracção em redor possível.
E quem sabe… se não apanharão pelo meio um bom susto ou dois também.

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CLASSIFICAÇÃO

[“I AM A GHOST”] como alguém já escreveu, pelo seu conceito é aquele tipo de história de fantasmas que nos deixa a perguntar se também não seremos um fantasma nós próprios ou teremos possibilidades de um dia ficar tão retidos no tempo quanto Emily o ficou.
Portanto, por ter essa capacidade de nos deixar a pensar e por tudo ter sido criado com um ambiente excelente suportando uma história de fantasmas verdadeiramente original…

Cinco Planetas Saturno

Só não lhe dou um Gold Award porque infelizmente mais uma vez e para grande pena minha também [“I AM A GHOST“] é mais outro daqueles filmes em que o argumentista parece pensar que as histórias não precisam de uma conclusão e esta moda moderna começa a irritar-me por demais.
Depois do espectador investir tanto no personagem e na situação construída de forma tão inteligentemente ao longo do filme, o facto de não encontrar no final uma conclusão verdadeiramente concreta mais uma vez é como ler um romance de mil páginas e no fim descobrir que alguém arrancou o capítulo que falta deixando tudo para interpretação subjectiva. E isto é irritante como o raio !

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Na verdade [“I AM A GHOST“] nem é dos piores, porque se estivermos com atenção há indícios muito concretos do que aconteceu no fim, mas sinceramente o filme não pareceria menos inteligente se nos tivesse mostrado o que acontece a Emily de forma obviamente conclusiva.
Apesar disso, o filme é mesmo muito bom pela sua originalidade e eficácia e portanto dar-lhe menos que cinco planetas Saturno seria também tão injusto como o final “subjectivo” com que este nos deixa.
Estou farto de histórias subjectivas !

A favor: A actriz principal e a personagem Emily, a ideia por detrás da história no que toca à explicação do facto de Emily continuar a assombrar a casa é muito boa e provocadora até, a realização é do melhor, a fotografia, o clima inquietante, os cenários de tom fúnebre e gótico espalhados pela mansão que Emily assombra, toda a estrutura da história e da resolução do mistério, som, tem um par de bons sustos e bons momentos de suspense, a forma como o estilo de filmagem está totalmente ligado ao que precisa de ser mostrado para que o espectador perceba o que está por detrás das peças do puzzle.

Contra: outro final aberto inconclusivo irritante como o raio, é um filme que acaba por se tornar ele próprio algo prisioneiro do seu próprio conceito e como tal poderá ser injustamente descartado para aquele tipo de cinema-de-autor armado em inteligente quando é muito mais do que isso. Não é um filme que nos apeteça rever muitas vezes.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER *minor spoilers* – Recomendo que vejam primeiro o filme para melhor efeito.


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ENTREVISTA COM O REALIZADOR

http://waytooindie.com/interview/interview-h-p-mendoza-i-am-a-ghost/

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FILME INTEGRAL no YOUTUBE (31-03-2018) – Legendado em PT/BR… …
(Não é para “espreitar a ver se gostam”; é para ver noite dentro do princípio ao fim sem saberem mais nada sobre a história)


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COMPRAR DVD – REGIÃO 2 – EDIÇÃO UK

https://www.amazon.co.uk/I-Am-Ghost-Region-2/dp/B00I8FCCV4/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1522518898&sr=8-1&keywords=i+am+a+ghost

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IMDb *spoilers*
https://www.imdb.com/title/tt2076862

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“DREAMCHILD” (“SONHOS DE CRIANÇA” / “DREAMCHILD”) Gavin Millar (1985) Inglaterra

[“DREAMCHILD“] será talvez um dos mais fascinantes filmes esquecidos dos anos 80 e uma das produções mais peculiares dentro de um certo sub-género de – Fantasia – que saíram naquela altura. Além de ser particularmente original é também um filme que jamais seria produzido nos mesmos moldes hoje em dia se pensarmos no politicamente correcto e no puritanismo americano que imperam actualmente na Era Trump em 2018 em todo o “mundo americanizado“.

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Na verdade mesmo na época em que foi produzido penso que [“DREAMCHILD“] só se escapou a maiores polémicas porque é essencialmente cinema inglês, com um toque muito europeu e como tal Hollywood pôde simplesmente descartar-se de responsabilidades morais ou moralistas, atirando-o para um circuito VHS quando este título necessitou de uma major norte americana para garantir a tal boa distribuição mundial que não ocorreu.
[“DREAMCHILD“] é ainda hoje mencionado como título polémico pois mesmo tantos anos depois continua a ser um filme muito difícil de classificar; essencialmente porque para mal ou para bem o que fica desta curiosa semi-versão de “ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS” é uma extraordinária humanização da pedofilia.
No melhor e mais poético dos sentidos se é que alguém consegue imaginar tal associação.

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[“DREAMCHILD“] sempre foi um título polémico porque o seu argumento alegadamente inventou um monte de coisas ao redor dos factos que pretende retratar como verídicos. Não apenas a suposta viagem da verdadeira “Alice” aos EUA nunca ocorreu naqueles moldes, como também o filme inclui personagens que nunca existiram ligados à velha senhora ( a sua empregada e o jovem jornalista por exemplo ).

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Agora o que deixou mesmo muita gente desconcertada foi o facto de [“DREAMCHILD“] ilustrar uma velha teoria que muitos críticos literários preferiam ver esquecida e que propõe que por detrás da origem do romance “ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS” terá estado uma obsessão do escritor Lewis Carrol na altura já próximo dos 50 anos por uma criança do seu círculo de amizade que inspirou o personagem do clássico livro de uma forma menos inocente do que a própria verdadeira Alice alguma vez se terá apercebido na altura em que viveu os acontecimentos.

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LOVE IS..

Ainda hoje existem argumentações dos dois lados. De um lado, o Sistema que prefere apresentar Lewis Carrol como um génio literário perfeitamente inocente; embora esteja estabelecido historicamente que Lewis Carrol tinha mesmo queda para apreciar crianças de uma forma tão peculiar que até na sua própria época foi suficientemente notada para constar registada como referência até aos nossos dias. O mundo literário prefere olhar para esse detalhe como apenas uma curiosidade sobre um escritor que nunca se casou apontando que este apenas tinha um enorme carinho por crianças porque ele próprio seria uma – alma infantil – visto ter conseguido criar na sua imaginação um mundo como Alice… o que pelo visto significa que toda a gente que escreva livros para crianças só o deve conseguir fazer se for pedófilo …

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Do outro lado estão aqueles que afirmam que os relatos sobre a sua obsessão muito particular apontam para algo mais do que apenas para um solteirão de meia idade que gostava muito de crianças sem qualquer contexto sexual.
Ora [“DREAMCHILD“] mais do que ser sobre a origem do romance “ALICE” é principalmente sobre a forma como Lewis Carrol completamente apaixonado pela verdadeira “Alice” de 12 anos recorreu à escrita para a colocar num mundo só seu muito próprio.
É aqui que o filme brilha ao ponto da própria polémica continuar acesa até os dias de hoje e em [“DREAMCHILD“] a culpa é toda de Ian Holm.

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O extraordinário equilíbrio precário em termos emocionais representado por Ian Holm na pele de Lewis Carrol é o que torna [“DREAMCHILD“] tão ambíguo, perturbante e tocante ao mesmo tempo; especialmente hoje.
É que o argumento sem querer ou talvez não, não se escapa de colocar a questão no ar de forma particularmente óbvia. Poderá aquilo que hoje em dia é considerado uma atitude pedófila imediatamente condenada ter na verdade uma legitimidade emocional e não ser apenas um desvio psicológico ou sexual definido pela nossa própria moral moderna ?
[“DREAMCHILD“] arrisca em terreno perigoso e consegue a proeza de deixar o espectador num meio termo particularmente desconfortável em termos de opinião. E para isso conta com um brilhante Ian Holm para nos baralhar por completo.

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Nas mãos de outro actor se calhar teria sido fácil dizer que o filme seria uma apologia da pedofilia porque não há dúvida que o argumento humaniza por completo a obsessão ( sexual ? ) reprimida (?) de Lewis Carol pela jovem Alice Hargreaves e Ian Holm joga com esse perigoso equilíbrio a todo o instante para deixar o espectador tão desconfortável quanto simpatético para com o sentimento genuíno daquele solteirão tímido e reservado que ( alegadamente ) só vivia verdadeiramente quando estava a sós na presença de crianças.

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[“DREAMCHILD“] tem por base a torrente de sentimentos que afligem Lewis Carrol quando este percebe que a mãe de Alice se prepara para apresentar a sua jovem filha à sociedade de forma a conseguir-lhe um bom casamento logo que passe à adolescência. Em parte porque era regra na sociedade abastada da altura mas também, rezam as crónicas porque a própria mãe de Alice se começou a aperceber que a dedicação de Lewis Carrol pela sua filha tinha motivos mais óbvios e como tal não podendo descartar o escritor do seu círculo social a ideia foi mesmo a de começar a pensar arranjar pretendentes para Alice o quanto antes. Esta é outra parte polémica do argumento pois parece que é um dos pontos em que este vai buscar um detalhe que supostamente foi real.
Mas todo este segmento é apenas uma das metades do filme.

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ALICE HARGREAVES 1932

A outra metade desta história passa-se em 1932 e gira à volta da primeira viagem de Alice aos EUA já com mais de oitenta anos de idade, para estar presente numa homenagem a Lewis Carrol.
Esta sequência em [“DREAMCHILD“] é o motor de toda a história do filme e apesar de segundo muita gente estar incorrectamente representada em termos históricos é no entanto aparentemente um aglomerado de várias outras situações reais posteriores condensadas num só momento, com uma pitada de imaginação pelo meio por parte dos argumentistas.

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E é também aqui que [“DREAMCHILD“] brilha mais uma vez. Se no passado temos um Ian Holm inesquecível como Lewis Carrol, nas sequências situadas sete décadas depois temos uma Coral Browne absolutamente extraordinária como a velha Alice. Eu desconhecia por completo esta actriz mas a sua prestação como Alice Hargreaves é outro dos grandes trunfos do filme, o que equilibra muito bem as cenas “contemporaneas” em 1932 com as cenas no passado Victoriano muitas décadas atrás. Uma daquelas interpretações que se houvesse justiça nos Óscares teria sido nomeada para melhor actriz sem qualquer sombra de dúvida.

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IT´S…
NOT THE MUPPET SHOW…

[“DREAMCHILD“] é também um estranho produto dentro do cinema de Fantasia porque o filme inclui uma boa quantidade de bocados de “ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS” recriados no ecrã pela magia das criaturas da Jim Henson Creature Shop que entre “THE DARK CRYSTAL” e “LABYRINTH” teve tempo para construir todo o necessário mundo de fantasia de Alice in Wonderland para este filme.
Todas as sequências passadas no mundo imaginário de Lewis Carrol ocorrem quando a velha Alice em 1932 está a dormir ou regressa mentalmente muitas décadas atrás na sua imaginação e fazem também a ligação entre o que se passa em 1932 e o que se passou ao redor da origem do livro de Carrol.

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Apesar de na altura do VHS os poucos clubes de video que tinham comprado esta cassete o terem colocado inevitavelmente na prateleira dos filmes para crianças por causa dos bonecos de Jim Henson terá havido muito menino não só totalmente baralhado com o filme como também particularmente assustado com as sequências imaginárias, isto porque [“DREAMCHILD“] constroi também visualmente uma extraordinária versão algo negra e perturbante do próprio universo de Lewis Carrol talvez para condizer com a própria ambiguidade sexual (?) ao redor da motivação para o romance ter existido em primeiro lugar. Ou seja [“DREAMCHILD“] não é um filme dos Marretas com toda a certeza e embora a jovem Amelia Shankley tenha sido uma pequena Alice excelente esta também tem por ali um lado menos inocente que distingue logo o filme do título comum para crianças que muita gente pensou ser na altura.

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LUCY & JACK

No entanto apesar de nos deixar por vezes particularmente desconcertados e com um verdadeiro sentimento de culpa por ficarmos a gostar tanto de Ian Holm quando o filme joga claramente com o seu desejo pela pequena Alice, [“DREAMCHILD“] não é um filme deprimente. Para isso o argumento incluiu e muito bem uma pequena história paralela entre a jovem empregada da velha Alice e um igualmente jovem jornalista que persegue a sua história quando percebe que a velha senhora está na origem do famoso romance.
Há quem ache que estes personagens são redundantes mas eu achei precisamente o contrário.

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Para começar são eles que aligeiram o argumento nas alturas em que o espectador precisa de respirar e parar para pensar e depois porque também as suas prestações são muito boas; em particular a jovem Nicola Cowper que foi péssima ( sabe-se lá porquê ) no muito decepcionante “LIONHEART” mas que aqui em [“DREAMCHILD“] está extraordinária como a reservada dama de companhia da velha Alice que se apaixona pelo repórter que as segue para todo o lado. É simples, é básico mas resulta e todos estas peças dão ao filme um sabor vintage particularmente fascinante ainda hoje. Especialmente para quem nunca ouviu falar de [“DREAMCHILD“].

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Estamos mais uma vez na presença de outro daqueles filmes que não envelheceram. Talvez por não ter sido um filme de Hollywood mas sim uma produção inglesa o próprio estilo de realização acabou por ser algo intemporal pois nem a estrutura do filme nem a própria montagem seguem as habituais convenções do cinema norte americano da altura e por isso mesmo não ficou datado, resultando ainda hoje mesmo muito bem.

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CLASSIFICAÇÃO

[“DREAMCHILD“] continua ainda hoje a ser um daqueles títulos tão únicos quanto desconhecidos do grande público e é um daqueles filmes de Fantasia apontados a um público adulto que importa conhecer quanto antes.
Só Ian Holm e Coral Browne valem o filme.

Cinco Planetas Saturno

Irá deixá-los a pensar no assunto muito depois dos créditos passarem.

A favor: Ian Holm, Coral Browne, todos os outros actores, a coragem de abordar o tema da pedófilia da forma que o faz deixando os espectadores desconcertados, a fotografia, o ambiente, as estranhas sequências de Fantasia.

Contra: apesar dos seus momentos mais ligeiros continua a ser um título algo estranho que poderá não agradar logo de imediato a uma primeira visão.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER


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COMPRAR DVD – REGIÃO 2 – EDIÇÃO UK
Durante anos este foi um dos filmes mais raros e difíceis de serem encontrados. Em Portugal só apareceu em VHS e inclusivamente esteve em venda directa na altura mas logo desapareceu para sempre.
Ainda não existe em Bluray mas há uns anos apareceu uma edição em DVD de lançamento inglês que poderão encontrar na amazon UK.

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https://www.amazon.co.uk/Dreamchild-Cult-Movie-Collection-DVD/dp/B00P10M3I6/ref=sr_1_fkmr0_1?ie=UTF8&qid=1522012399&sr=8-1-fkmr0&keywords=dreamchild+bluray

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IMDb
https://www.imdb.com/title/tt0089052

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“SOMEWHERE IN TIME” (“SOMEWHERE IN TIME” / “ALGURES NO TEMPO”) Jeannot Szwarc (1980) EUA

Até há dois dias atrás, da primeira ( e última vez ) que vi [“SOMEWHERE IN TIME“] na TV ainda não existiam televisões a cores em Portugal; o país só tinha dois canais e um deles ( a RTP2 ) ainda nem sequer chegava à província.
Estávamos no início dos anos 80 e todo o meu imaginário televisivo era ainda a preto e branco, com coisas como Battlestar Galactica ou Espaço 1999 que pintavam unicamente em tons de cinza todos os universos de ficção-científica que me chegavam por essa altura pois a televisão a cores só entrou na minha casa em 1984 visto que até então ela era própria um verdadeiro objecto digno de ficção científica.

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Eu não deveria ter mais de 11 ou 12 anos mas por qualquer motivo nunca mais esqueci o Sábado à tarde em que [“SOMEWHERE IN TIME“] entrou definitivamente para a minha imaginação, pois retive as suas imagens ( a preto e branco ) na memória durante décadas. Não me recordo porque me despertou a atenção na altura ( afinal o filme não metia naves nem extraterrestres ) e talvez tenha sido porque era a única coisa que havia para ver na televisão nesse dia; ( nem o VHS existia em Portugal ); mas o facto é que nunca mais esqueci esta história sobre viagens no tempo.

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Não faço ideia se [“SOMEWHERE IN TIME“] foi editado em Portugal no formato VHS quando este surgiu uns anos mais tarde. Eu pelo menos nunca me deparei com o filme em qualquer clube de video.
Pelo que li sobre a produção compreendo agora como foi possível um filme de 1980 ter aparecido logo numa televisão de um país do terceiro mundo como Portugal mesmo praticamente após ter sido lançado em cinema nos EUA.

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[“SOMEWHERE IN TIME“] foi tal como outros títulos que se tornaram cinema de culto anos após a sua estreia também um fracasso comercial nas salas de cinema norte americanas a quando do seu lançamento, o que fez com que fosse imediatamente incluído num daqueles catálogos que os estúdios licenciavam para passar nas televisões estrangeiras e que terá sido comprado pela RTP nessa altura; até porque foi nessa mesma época que a RTP1 nas suas tarde de cinema de Sábado também passou “SILENT RUNNING” que na sua “estreia” televisiva teve o nome “CORRIDA SILENCIOSA” anos antes sequer do filme ter estreado nos cinemas Portugueses com o título pelo qual é conhecido hoje nas edições PT; “O COSMONAUTA PERDIDO”.
[“SOMEWHERE IN TIME“] muito provavelmente terá pertencido ao mesmo catálogo de filmes pois vi ambos a um Sábado à tarde e ainda a preto-e-branco; o que para mim significa que os vi antes de 1984 sem a menor sombra de dúvida e no mesmo período de tempo visto que as grelhas de programação mudavam de ano para ano.

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COME BACK TO ME

Vi [“SOMEWHERE IN TIME“] a cores ontem pela primeira vez depois destes anos todos. Até agora todo o filme tinha sido gravado a preto e branco na minha memória e foi verdadeiramente fascinante descobrir esta história em cor.
Continua hoje em dia a ser um título único pela forma como aborda o tema das viagens no tempo. É na sua essência um daqueles filmes de ficção-científica que à partida nem parecem sê-lo de forma óbvia; à semelhança de coisas como por exemplo “THE BIG BLUE / LE GRAND BLEU” pois ambos tratam essa característica de forma séria.
Em [“SOMEWHERE IN TIME“] estamos na presença de um conceito sci-fi baseado em ideias e não em efeitos especiais e esse detalhe quase que se torna despercebido a olhares menos atentos.

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[“SOMEWHERE IN TIME“] surpreendentemente não só é um filme que não envelheceu nada como hoje em dia ainda parece inclusivamente mais moderno apesar do estilo de realização da época em que foi feito.
Numa altura onde ainda nem se falava de física quântica de forma mediática já a história recorria a conceitos actualmente propostos sobre a inexistência do próprio Tempo tal como nos apercebemos dele e utiliza a ideia de – um Temposimultâneo para colocar o personagem da história a viajar até ao passado sem precisar de recorrer a uma máquina bastando para isso ele ter encontrado uma forma de transportar a sua consciência através da quarta dimensão sempre presente transcendendo a ilusão de uma existência física.
O próprio autor da história Richard Matheson na altura recorreu a pesquisas sobre a teoria que emergia nos anos 70 de forma a fundamentar o mais cientificamente possível no livro o seu método para viajar no tempo e evitar ao máximo que este se parecesse apenas com uma fantasia ou com um sonho.

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[“SOMEWHERE IN TIME“] o filme, dá um pequeno destaque a esse detalhe quando Richard encontra o livro científico em que depois se irá basear para efectuar a sua viagem para o passado ( numa alusão a um trabalho científico real que esteve na base da história ) embora no romance original de Richard Matheson todo esse processo esteja descrito em melhor detalhe.
[“SOMEWHERE IN TIME“] é portanto também por isto um digno representante da boa ficção científica ( adulta ) que se fazia no início dos anos 80 e verdadeiramente um filme merecedor do seu estatuto de cinema de culto hoje em dia.
Não apenas porque continua a ser uma das melhores histórias sobre viagens no tempo mas também porque conta uma das melhores histórias de amor saídas de Hollywood até hoje.

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COME BACK TO ME.

[“SOMEWHERE IN TIME“] por si só já era uma história de amor daquelas inesquecíveis por mérito próprio; tanto pela química perfeita entre Jane Seymour e Christopher Reeve , pela atmosfera do filme, pela banda sonora e por todo o conjunto em geral mas agora que consegui ler pela primeira vez o romance original escrito por Richard Matheson no início dos anos 70 ainda o acho um título mais mágico por muitos e até surpreendentes motivos.

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[“SOMEWHERE IN TIME“] conta a história de um argumentista Richard, que um dia se depara com uma velha fotografia de uma actriz de teatro célebre há mais de setenta anos atrás no início do sec.XX e se apaixona pela imagem.
Ao procurar saber mais sobre a mulher retratada, descobre que esta terá sido em jovem a mesma velhota que um dia dez anos atrás já com mais de 80 anos, o abordou durante a estreia de uma das suas próprias peças quando este estava a começar a carreira e lhe colocou nas mãos um velho relógio de bolso, dizendo-lhe – “Volta para mim” – tendo desaparecido em seguida.
Obcecado com a descoberta Richard inicia uma investigação que ao juntar cada peça do puzzle o irá levar a tentar utilizar todos os conhecimentos mais -fringe- dos anos 70 dentro da ciência para tentar viajar ao passado e conhecer pessoalmente Elise.

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IS IT YOU ?

Embora não seja uma adaptação perfeita do romance [“SOMEWHERE IN TIME“] o filme capta muito bem muita da sua estrutura e até da sua alma.
Embora para mim tenha perdido um ligeiro ponto pois revi-o há dias, no mesmo dia em que completei a leitura do livro e na verdade em termos emocionais o livro é mesmo muito superior.

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A forma como o romance utiliza o suspense para dar uma alma enorme à história de amor não foi totalmente captada pelo argumento do filme, mas na verdade seria impossível que o tivesse sido.
O livro é no entanto verdadeiramente fascinante; algo à parte e uma daquelas obras que mesmo que já tenhamos visto o filme antes contém uma experiência única pela forma episódica em que está escrito, pelos detalhes sobre como viajar no tempo e pelo suspense incrível que consegue conter nas suas linhas.
Além disso em termos de ambientes onde tudo se passa é bem mais variado do que os poucos cenários em que o filme foi rodado. O livro é verdadeiramente mais épico naquele sentido mais clássico das histórias de amor. O filme é muito mais contido até pelo pouco orçamento que teve na altura pois o estúdio nem queria saber do projecto.

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[“SOMEWHERE IN TIME“] o filme no entanto faz um óptimo trabalho na forma como cria uma atmosfera romântica clássica muito própria que nunca por um momento parece artificial. Este continua a ser um daqueles títulos que funciona como uma verdadeira máquina do tempo ainda hoje e para mim foi uma verdadeira surpresa pois estava convencido que estaria particularmente datado, coisa que não acontece de todo.
O argumento foi adaptado pelo próprio autor do romance e talvez seja por isso que mesmo apesar das diferenças o filme seja bastante fiel ao conceito inicial.

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O livro é no entanto muito mais dramático e sério, enquanto que o filme contêm momentos particularmente ligeiros; até humorísticos o que por vezes fazem com que as duas versões pareçam mais separadas.
O filme remove alguns aspectos do livro o que torna o final da história algo diferente. No livro Richard está a morrer com um tumor no cérebro e toda a sua viagem no tempo em certa altura é até questionada pelo próprio pensando tratar-se de uma alucinação provocada pela doença. No filme todo esse detalhe foi retirado o que obrigou a que o argumento tivesse uma abordagem diferente na conclusão da história.

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Dramaticamente gostei muito do final do romance, mas tenho que admitir que a forma esotérica como o filme termina ( e que segundo li parece ter inspirado James Cameron para o fim de Titanic ) , resulta mesmo muito melhor em termos cinematográficos; ( principalmente quando acompanhado da fabulosa banda sonora de John Barry ).
O filme também inclui a cena em que a velha Elise entrega o relógio antigo ao jovem Richard logo no início da história. Isso não está no livro mas ainda bem que o filme incluiu esse momento pois é definitivamente o coração do argumento; embora estejamos a falar -do famoso paradoxo- de [“SOMEWHERE IN TIME“].

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O facto do relógio ter sido entregue por Elise nos anos 80 a Richard significa que o relógio sempre existiu e nunca terá sido fabricado, pois se a sua existência no início do sec.XX se deve ao facto de Richard o ter transportado através do tempo porque Elise lho entregou décadas depois de o ter recebido isto quer dizer que nunca houve um período em que o objecto pôde ter sido fabricado pois sempre esteve nas mãos de um dos dois.
Este e mais um par de outros pormenores que deixo por descobrir são também o que tornam [“SOMEWHERE IN TIME“] ainda hoje numa história sobre viagens no tempo tão especial.

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ELISE

Outro pormenor fascinante que descobri há dias sobre o romance original foi o facto de ter sido baseado na existência real dos seus personagens centrais; tanto Elise quanto o seu manager Robinson não foram apenas baseados em pessoas que existiram mesmo como tudo o que está descrito sobre eles no romance foi decalcado directamente do que se sabe sobre as suas próprias vidas; inclusivamente o período de reclusão e mistério que envolveu a verdadeira “Elise” ( de seu nome real – Maud Adams- ) e no qual Richard Matheson se baseou para criar toda a vertente romântica do livro.
Richard Matheson que inclusivamente terá ele próprio ficado obcecado com a fotografia da original Maud Adams levando-o a escrever o livro sendo esta a sua obra favorita.

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Tal como descreveu mais tarde no seu personagem semi autobiográfico, – Richard-,  a descoberta da própria fotografia impressionou-o o suficiente para ficar verdadeiramente interessado na possibilidade real de uma pessoa poder realmente viajar pelo tempo por meios particularmente tão “simples” como os que ele descreveu depois no seu romance.  Meios, que como já referi foram baseados nas opiniões não apenas de um ( ao contrário do que aparece no filme ) mas de vários cientistas que Richard Matheson terá consultado na altura quando mergulhava na história do próprio passado da verdadeira “Elise” após ter visto a foto pela primeira vez nas mesmas circunstâncias em que aparece na novela e no filme.

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ALGURES NO TEMPO

Resumindo, [“SOMEWHERE IN TIME“] para lá de não ter envelhecido enquanto filme com o passar dos anos ganhou nova textura. Não só se tornou num dos grandes filmes de culto dentro do cinema romântico como foi também um dos primeiros filmes americanos a ter sucesso na China onde esteve em exibição contínua por mais de 18 meses já a meio dos 80s continuando hoje a ser bem popular no oriente; ( talvez porque se assemelhe hoje em dia tanto ao melhor do cinema romântico Chinês, Japonês e Sul Coreano pois se vocês gostarem de [“SOMEWHERE IN TIME“] não irão querer de todo perder também “IL MARE” ou “BE WITH YOU” de temáticas particularmente semelhantes ).

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[“SOMEWHERE IN TIME“] foi realizado por Jeannot Szwarc, um dos meus realizadores favoritos dos anos 70 e que foi responsável pela sequela de “JAWS”. O sucesso de “JAWS II” foi curiosamente aquilo que fez com que a existência desta adaptação do livro “SOMEWHERE IN TIME” ( originalmente “Bid time return” )  fosse levada ao ecrã pois o realizador encostou o estúdio à parede e fez com que este fosse o seu filme seguinte.

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CLASSIFICAÇÃO

[“SOMEWHERE IN TIME“] não apenas continua a ser uma espécie de excelente episódio longo de um Twilight Zone como enquanto história de amor é uma das melhores que Hollywood ( mesmo contrariado ) já produziu.
É uma boa adaptação do romance original, tem um par protagonista absolutamente perfeito, uma banda sonora fabulosa e montes de atmosfera clássica. Além disso é um grande filme de ficção-científica absolutamente discreto e poderia ter sido filmado hoje mesmo embora hoje fosse certamente protagonizado por adolescentes em modo Twilight com toda a certeza e não restaria nada do tom adulto do romance original.

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Só não leva um Gold Award porque o romance é mais profundo ( e ainda mais emocional ); o que torna o filme numa versão mais ligeira da história dramática original.

A favor: a história, os actores, a banda sonora, a atmosfera, os detalhes novos que não estão no livro, o final. Podem ler o livro a seguir porque continua fascinante mesmo depois de terem visto o filme.

Contra: apesar de tudo o livro é ainda melhor !

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER

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Website oficial
http://www.somewhereintime.tv/

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LOCAIS DE FILMAGEM

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IMDb
https://www.imdb.com/title/tt0081534

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MKG OF – Entrevistas


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BANDA SONORA

 

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A verdadeira “Elise”
A esquecida e igualmente misteriosa actriz do principio do sec. XX que inspirou o romance original de Matheson. Practicamente todas as características e mistérios relativos a Elise descritos no livro foram decalcados do que se conhece sobre “Maude Adams“; inclusivamente a ligação ao seu manager Robinson tal como aparece no livro e filme, tendo este na vida real também sofrido o destino que está descrito na história.

 

 

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